A simbologia da Cruz

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Sim, a imagem de Viviany, a travesti crucificada na parada gay de São Paulo me chocou num primeiro olhar. Não deu pra evitar, sou de criação católica, onde é de muito bom-tom fazer o sinal da cruz, pedir a benção ao mais velhos, fazer catecismo, ir à missa aos domingos, rezar um Pai Nosso antes de dormir (Mesmo que você não entenda a mensagem da oração e muitas vezes a faça mecanicamente)… Bom, essa foi minha criação.

Mas não foi essa, por assim dizer, minha evolução. Como ser humano, sempre busquei explicações no divino, sem entender que o divino simplesmente não se explica, e pulei de religião em religião sempre tentando buscar o meu lugar. Como gay, sempre foi um pouco difícil me encaixar em certos dogmas. Lembro que às vésperas de minha primeira comunhão, havendo a confissão obrigatória, eu revelei ao padre que sentia atração por homens e este me fez rezar alguns muitos pai nossos por penitência. Ao fim, perguntou se eu me arrependia e se me sentia melhor. Eu não sabia dizer. Afinal, arrependido de que?

A crucificação de Viviany me remeteu aos meus momentos na igreja, onde uma enorme cruz com um Jesus Cristo morto nela tinha o papel de gerar culpa. Isso mesmo, culpa. Afinal, Cristo morreu por nós e ainda assim pecamos. Como você pode fazer isso? Olha o cadáver de Cristo ali, na sua frente! Culpa. As igrejas, todas elas, se alimentam da culpa e de subterfúgios para livrar as ovelhas do pecado. O dízimo, por exemplo, é uma excelente maneira de ficar quite com seus pecados. Hoje em dia isso é um pouco mais latente em algumas igrejas evangélicas, mas não se pode esquecer que foi com muito dinheiro desonesto que a igreja católica se ergueu no mundo.

Voltando ao caso Viviany. Muitos religiosos se ofenderam ao ver um travesti “profanando” um símbolo religioso. Vamos lá citar o pastor Marcos Feliciano, um dos primeiros a incitar o ódio contra o protesto. Marcos é o líder de uma comunidade evangélica e os evangélicos são conhecidos pela sua intolerância às imagens existentes em outras religiões como a Católica e o Candomblé. Nessa caso, por que o pastor se sentiu ofendido pela “profanação” de um símbolo no qual ele e sua comunidade não acreditam? Simplesmente pelo fato de se tratar de um travesti, tendo em vista que a comunidade gay tem sido um dos alvos principais do pastor. Em seguida, ele reposta vídeos de um travesti e uma lésbica que são contra o que foi apresentado na parada gay, novamente contradizendo a si mesmo ao ser conivente com aqueles a quem tanto julga e aos quais quer curar. Seus seguidores, todavia, parecem nem se dar ao trabalho de mensurar tais ações.

Quando disse que a imagem de Viviany à primeira vista me chocou por uma crença católica ainda presente em mim, ela chocou ainda mais quando eu lembrei o que representa ser crucificado. Pra começar, Jesus não foi o primeiro a ser crucificado e nem foi o último. O Império Romano usava a cruz como uma sentença de morte, muitas vezes tirando a vida de inocentes que eram “condenados” pela opinião pública da época. Ou vai me dizer que esqueceram que a morte de Jesus foi arquitetada pelos poderosos? E essa morte só aconteceu porque o povo estava ao lado dos lideres da época e foram às ruas pedir a condenação de Jesus. Entre libertar Jesus e condenar Barrabás, um notório assassino, o povo decidiu pela morte de um homem que pregava o amor e pela liberdade de um outro que várias vidas tirou.

Eu não acredito na cruz como objeto de adoração. Simplesmente porque adorar a cruz é ser conivente com um objeto de humilhação e tortura que vitimou, e ainda vitima, milhares de pessoas. A cruz era a forma mais humilhante de morrer. A sentença de morte poderia ser uma facada fatal ou mesmo a ingestão de algum veneno, mas não era humilhante o suficiente. O preso tinha que carregar a barra vertical da cruz da prisão até o local de sua execução, em um proposital longo percurso. Nesse trajeto, era escoltado por soldados que incitavam o povo a humilhar e agredir o preso, sem demonstrar qualquer empatia ou simpatia por ele. Então, preso à cruz, o condenado experimentava a tortura de uma morte lenta, observada pelos olhares sádicos do povo que mal podia esperar pelo próximo espetáculo de execução pública. Triste, eu sei. Mas ainda hoje esse espetáculo acontece em alguns países e entre suas principais vítimas estão os gays. Agora me diga você se um objeto que causa tanta dor merece adoração? Um padre me disse certa vez que é pelo fato de significar que Jesus venceu a cruz (cruz=morte) e nos redimiu de nossos pecados através de tal ato. Tudo bem, então, por favor, já que ele venceu a morte coloque a imagem de um Cristo vivo e parem de vender crucifixos por aí.

O protesto de Viviany foi um protesto pesado, doloroso, porém muito bonito. No protesto vemos a dor e a humilhação que sofrem todos aqueles que não seguem os “padrões” da sociedade. Era uma travesti ali em cima, mas poderia ser eu, ser você, aquele jovem que cresce à margem da sociedade, a pessoa discriminada pela sua cor, aquela discriminada por ser mulher numa sociedade machista, enfim… A cruz foi uma alegoria para dor e humilhação, assim como Viviany é uma alegoria pra todos nós que simplesmente não somos aceitos pela sociedade em que tanto queremos viver.

Quem conhece, e ama, Jesus Cristo sabe que ele jamais se sentiria ofendido pelo teor da manifestação. Ele se sentiria ofendido sim, em saber que em pleno 2015 seus filhos não aprenderam a mais importante das lições: Ama a Deus sobre todas as coisas e ama teu próximo como a ti mesmo.

2 COMENTÁRIOS

  1. Belo texto Andy penso da mesma forma que você, também fui criado dentro do catolicismo e tenho/levo alguns dos ensinamentos da igreja católica pro meu dia a dia, muitos mecanizados como você bem disse no texto, mas são aqueles que sinto me levar pra mais próximo de Deus. Tenho certeza que ele não concordaria com todo este fanatismo exposto nos comentários homofóbicos, porque sim apenas este fanatismo exacerbado justificaria tal ignorância e preconceito.

  2. ANDY, GOSTEI MUITO DE SEU TEXTO. ELE É BEM EXPLICATIVO E SINCERO. CONCORDO TOTALMENTE COM VC. SE TODOS PENSASSEM ASSIM, E NÃO SE DEIXASSEM LEVAR POR PESSOAS IGNORANTES, O MUNDO COM CERTEZA NÃO CONHECERIA O PRECONCEITO. DE QUE ADIANTA VIVER COM TANTA TECNOLOGIA E INFORMAÇÃO SE NÃO USAM PARA O BEM DA HUMANIDADE? INDEPENDENTE DE QUALQUER COISA SOMOS TODOS FILHOS DE DEUS.

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