As rainhas das comédias românticas em todos os tempos

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O termo comédia romântica, ou screwball, estabeleceu-se em Hollywood perto do fim dos anos 20, quando o cinema se tornou sonoro, mas as comédias se tornaram mais populares na década de 30 quando o público americano buscava no cinema temas mais leves para aliviá-los da depressão que o país estava enfrentando. Foi nessa década que pela primeira vez uma comédia romântica levou o Oscar, ‘Aconteceu naquela noite (de Frank Capra, 1934). Na época, nem mesmo os atores gostavam desse gênero. Muitos só se aventuravam nele em início de carreira ou entravam nos projetos como punição dos estúdios. Foi o caso de Clark Gable e Claudette Colbert no filme de Capra. Ao fim das filmagens Colbert declarou que havia feito o pior filme de sua carreira. Pior filme ou não, a questão é que o público se apaixonou de vez pelo gênero e além do Oscar de melhor filme ‘Aconteceu naquela noite levou ainda as estatuetas de direção, ator, atriz e roteiro.

O argumento básico das comédias românticas focava em um casal que, apesar da óbvia atração física, não se envolve por diversos fatores.  Antes que fiquem juntos, eles se envolvem nas mais diversas confusões motivadas por suas paixões. Esse tipo de filme é marcado pela forte presença feminina em personagens cômicas e carismáticas. Alguns bons exemplos de comédias românticas são ‘Casamento Grego, ‘Enquanto você dormia, ‘Quase igual aos outros, ‘Nascida ontem, ‘Sabrina, ‘Cinderela às avessas, ‘A alegre divorciada e ‘Como agarrar um milionário.

Apesar do público principal desse filmes serem as mulheres, que se identificavam com as personagens, os homens também marcavam presença nos cinemas por causa das belas atrizes que acabavam levando o título de “namoradinha da América”.

Cada época teve sua “namoradinha”, que reinaram absolutas por mais ou menos uma década. Depois disso ou arriscavam outros projetos e passavam o título para outra, ou então perdiam seu interesse e viam o título ir para outra. A verdade é que os estúdios trabalhavam arduamente na imagem dessas estrelas, pois seus nomes nos filmes significavam, e ainda significam, boas bilheterias.

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Anos 10 – Mary Pickford – Estreou no cinema mudo, mas logo se tornou a rainha das telas sendo a primeira a atriz a ser chamada de “America’s sweetheart”, ou namoradinha da América. Foi uma das poucas a sobreviver ao boicote dos estúdios (que acabaram com suas estrelas mais caras quando o som chegou aos cinemas) e continuar famosa, ganhando inclusive um Oscar de melhor atriz em 1930. Foi a primeira a colocar suas marcas de mãos e pegadas no cimento em frente ao Chinese Theater. Também formou um dos casais mais famosos do cinema quando se casou com Douglas Fairbanks. Faleceu em 1979.

Aspirante ao posto – Mabel Normand – Inaugurou o pastelão sendo a primeira a jogar uma torta na cara de alguém no cinema.

Por que perdeu a coroa? – Porque uma nova beldade roubou o seu lugar e ela fingiu não se importar muito.

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Anos 20 – Marion Davies – Estreou como dançarina nas famosas Ziegfeld Follies, mas queria mais do que isso na vida. Mudou-se para Hollywood onde se tornou uma das maiores atrizes de comédia do cinema mudo. Apesar de casada, se envolveu com o milionário William Randolph Hearst, também casado, e juntos viveram o primeiro caso escandaloso da capital do cinema. Suas festas à fantasia eram memoráveis.  Entre seus filmes destacam-se ‘When knighthood was in flower’ e ‘Ever since Eve’.

Aspirante ao posto – Clara Bow, a grande estrela da época dava preferência a trabalhos mais sérios.

Por que perdeu a coroa? – O gênero não estava ainda bem estabelecido quando o cinema se tornou sonoro em meados de 1927 e ela logo se aposentou pra viver seu caso de amor.

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Anos 30 – Carole Lombard – Foi nessa década que o cinema conheceu o maior exemplo de comédia romântica até então: ‘Aconteceu naquela noite, que levou as cinco principais estatuetas do Oscar. Apesar de Claudette Colbert ter levado a estatueta de melhor atriz, foi Carole Lombard quem ficou com o título de namoradinha da América da época por causa da maneira graciosa como fazia comédia. Ela sempre teve uma vida difícil marcada por tragédias pessoais, mas isso não a impediu de alcançar o estrelato em filmes como ‘Irene, a teimosa (que lhe deu sua única indicação ao Oscar) e a primeira versão de ‘Sr. e Sra. Smith, dirigido por Alfred Hitchcock, além de ser considerada uma excelente companheira de trabalho pelas equipes envolvidas em seus filmes. Casada com Clark Gable, aceitou trocar uma viagem de trem por uma viagem de avião quando iria vender bônus para ajudar as tropas Americanas na segunda guerra mundial, em 1942. O avião chocou-se com um pico, matando a jovem atriz.

Aspirante ao posto – Myrna Loy, Rosanlind Russel e Jean Harlow, que praticamente inventou o mito da loura burra.

Cena inesquecível – Qualquer uma em que serve de escada em ‘Ser ou não ser’, de Ernst Lubitsch.

Por que perdeu a coroa? – Sua morte prematura a tirou do cinema cedo demais, mas sua marca permanecerá pra sempre em Hollywood.

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Anos 40 – Katharine Hepburn – A única atriz a ganhar quatro Oscars tem um currículo invejável de filmes, tendo trabalhado com os melhores atores, diretores e produtores.  Dedicou sua vida a arte de interpretar. Tinha fama de durona por seus discursos feministas e sua língua afiadíssima, mas quem a conhecia falava de seu coração imenso e de seu incrível bom humor. Adorava atuar em comédias românticas, tendo papéis de destaque em filmes como ‘Núpcias de escândalo’ e ‘Levada da breca’. Seu grande parceiro na tela foi Spencer Tracy, com quem compartilhou mais do que os sets de filmagem segundo os fofoqueiros da época. Seus filmes são até hoje referenciais para estudantes de interpretação. A atriz faleceu em 2003.

Aspirante ao posto – Paulette Goddard, Betty Hutton eBetty Grable.

Cena inesquecível – A hilária guerra de comida no café da manhã, em ‘A costela de Adão’, ao lado de Spencer Tracy.

Por que perdeu a coroa? – Ela perdeu mesmo a coroa? Bem, na verdade passou a fazer outros tipos de filme, mais dramáticos, e deixou o título para outra. Porém, ela é a prova de que rainha nunca perde a majestade e tem um título mais importante: o de grande dama do cinema.

A glamorous Marilyn Monroe in a red dress.
A glamorous Marilyn Monroe in a red dress.

Anos 50 – Marilyn Monroe – Certamente a mais celebrada estrela do cinema, conhecida mundialmente mesmo por aqueles que nunca viram um de seus filmes. Renovou as comédias com sua sensualidade explícita, dando um novo gás ao gênero. Nada mal para uma menina pobre que cresceu em lares adotivos, mas tinha o sonho de ser famosa. Depois de algumas pontas em filmes e trabalhos como modelo, aceitou posar nua para a edição de estréia da revista Playboy. Causou comoção imediata e logo as chances lhe sorrirem e os convites para atuar apareceram. Ganhou visibilidade ao atuar ao lado de Bette Davis em ‘A malvada’. Tornou-se o grande sucesso da Fox, garantindo gordas bilheterias. Porém, quanto mais famosa ficava, mais sua vida pessoal desmoronava e o casamento com o jogador de Baseball Joe DiMaggio durou muito pouco. Conseguiu convencer a crítica de sabia fazer dramas também ao atuar em ‘Nunca fui santa’, mas seu forte mesmo eram as comédias. Estrelou ao lado de Lawrence Olivier ‘O prícipe encantado’. Seu sucesso foi tão grande que os outros estúdios se viram obrigados a “criar” estrelas capazes de rivalizá-la como Kim Novak (Columbia), Jayne Mansfield (Paramount) e Mamie Van Doreen (Universal). Dentre os filmes de sua carreira cabe destacar ‘Os homens preferem as loiras, ‘Como agarrar um milionário e ‘O rio das almas perdidas.

Aspirante ao posto – Audrey Hepburn e Doris Day, que faziam o tipo certinhas demais. Por causa dessa característica, Doris Day viu sua carreira naufragar na década seguinte.

Cena inesquecível – Em ‘O pecado mora ao lado quando o vento do metrô levanta sensualmente o seu vestido (em uma das cenas mais famosas do cinema) e ela sorri para o seu vizinho, que fica completamente fascinado.

Por que perdeu a coroa? – Era um problema para os estúdios, diretores e atores por causa de seus atrasos e por nunca decorar seus textos. Billy Wilder chegou a dizer que não trabalharia mais com ela, pois já havia sido punido demais nos dois filmes em que a dirigiu, ‘O pecado mora ao lado’ e ‘Quanto mais quente melhor’. Aprontou dessas com William Wyler em 1962 durante as filmagens de ‘Alguém tem que ceder’, que seria seu retorno às telas, mas acabou afundando a produção e sua carreira já que a Fox, ameaçada de falir na época (o estúdio só se restabeleceria em 1965 após o fenômeno ‘A noviça rebelde’), resolveu demiti-la. Marilyn faleceu no mesmo ano num incidente com drogas até hoje mal explicado. Acredita-se até hoje em uma conspiração da Casa Branca para abafar seu caso com o então presidente dos EUA John Kennedy.

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Shirley MacLaine, ca. 1962

Anos 60 – Shirley McLaine – Essa ruiva estreou no cinema pelas mãos de ninguém menos que Alfred Hitchcock e desde então trabalhou com os melhores atores e diretores. É irmã do também ator e diretor Warren Beatty, mas seus trabalhos sempre foram independentes. Atuou em filmes como ‘Se meu apartamento falasse e ‘A volta ao mundo em 80 dias’ e, apesar de várias indicações, seu Oscar veio apenas em 1983 com o sucesso ‘Laços de ternura’. Sempre gostou do cinema e apesar de ter feito muito sucesso como escritora diz que é atuando que ela se diverte mais.

Aspirante ao posto – Ann-Margret e Sandra Dee.

Cena inesquecível – Quando fica presa no elevador com Jack Lemmon em ‘Irma La Douce’, provando o talento de Billy Wilder para dirigir comédias.

Por que perdeu a coroa? – Se dedicou a projetos pessoais durante um tempo e passou a coroa para a melhor amiga, Barbra Streisand. Porém, nunca ficou afastada das telas e uma das atrizes que mais trabalha em Hollywood.

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Anos 70 – Barbra Streisand – Hoje em dia ela é mais conhecida pela carreira de cantora, mas Barbra é uma artista versátil e uma das únicas que já levou os quatro principais prêmios do entretenimento: O Oscar, o Grammy, o Emmy e o Tony. Nunca foi muito bonita, mas tinha muito carisma na tela a seu favor. Despontou para a fama no cinema em ‘Funny girl, a garota genial e desde então emplacou diversos sucessos no cinema, inclusive como diretora. Com fama de antipática e arrogante, seu último grande trabalho foi como a mãe de Ben Stiller em ‘Entrando numa fria maior ainda.

Aspirante ao posto – Fala sério; pra ela ser a queridinha da América era sinal realmente de que não devia haver muita concorrência.

Cena inesquecível – Qualquer uma de ‘O corujão e a gatinha’.

Por que perdeu a coroa? – Começou a se dedicar a outros trabalhos, como o filme ‘Yentl (pelo qual ganhou a Framboesa de Ouro de pior ator! – Sim, você leu certo), e a carreira de cantora. Até que foi bem sucedida em sua comédia romântica da terceira idade, ‘O espelho tem duas faces’, mas não passou dali.

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Anos 80 – Molly Ringwald – Nos anos 80 ela foi a mais bem sucedida do conhecido ‘Brat Pack juntamente com astros como Judd Nelson, Anthony Michael Hall, Demi Moore, Rob Lowe, Ally Sheedy, Emilio Estevez e Andrew McCarthy. Desde então protagonizou filmes campeões de bilheteria como ‘Clube dos cinco e ‘A garota de rosa shocking. Era a preferida da América, sendo capa de revistas famosas como a Time. Suas marcas registradas eram o cabelo ruivo e o jeito de moleca travessa. Diferente das demais “namoradinhas”, nunca passou nem perto de um Oscar
Aspirante ao posto – Ally Sheed.

Cena inesquecível – Durante um jantar em família Darcy, como quem não quer nada, revela estar grávida do namorado deixando a todos estarrecidos em ‘A cegonha não pode esperar.

Por que perdeu a coroa? – Tirou algumas férias mais longas e passou a recusar papéis que não pareciam ser bons o suficiente para ela, como as protagonistas de ‘Ghost, do outro lado da vida’ e ‘Uma linda mulher’, passando definitivamente a coroa para Julia Roberts. Ensaiou alguns retornos, mas seu nome não atraía mais o público e ficou restrita a participações especiais em filmes de terror para adolescentes.

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Anos 90 – Julia Roberts – A rainha absoluta das comédias românticas! Até mesmo Katharine Hepburn se dizia sua fã. Julia já havia sido indicada ao Oscar quando ganhou o papel da prostituta Vivian em ‘Uma linda mulher’. O estúdio não a queria no filme, pois não acreditava que seu nome atrairia público e davam preferência a Molly Ringwald ou Meg Ryan, que recusaram o papel. Gary Marshall, porém, acertou na escolha e o filme, além de ser considerado a comédia romântica definitiva, projetou o nome de Julia no mundo inteiro e lhe deu uma indicação ao Oscar de melhor atriz. Apesar da fama de difícil, o público caiu de paixão pelo seu inesquecível sorriso e imenso carisma, que lhe valeram excelentes bilheterias e por muito tempo o posto de atriz mais bem paga em Hollywood, não saindo da cama por menos de 20 milhões de dólares. Em sua filmografia destacam-se ‘O casamento do meu melhor amigo’, ‘Um lugar chamado Nottin Hill’ e ‘Flores de aço’.

Aspirante ao posto – Meg Ryan e Sandra Bullock.

Cena inesquecível – Vivian em seu dia de Cinderela na Rodeo Drive de Los Angeles, em ‘Uma linda mulher’, onde Edward (Richard Gere) exige ao gerente de uma loja que todos os funcionários a paparicassem. Em seguida, Vivian entra em uma loja onde fora humilhada no dia anterior e deu o troco às vendedoras.

Por que perdeu a coroa? – Um dia resolveu dar um tempo nas comédias românticas e fazer um drama pra ver “no que dava”. Deu no seu Oscar de melhor atriz pelo papel em ‘Erin Brockovich, uma mulher de talento’. Passou a apostar em papéis mais desafiadores em filmes como ‘O sorriso de Monalisa’ e ‘Closer, perto demais’.

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Anos 2000 – Reese Witherspoon – Ela já se destacava em filmes como ‘Eleição’ e ‘Pleasantville, a vida em branco e preto’, mas foi no papel da fútil estudante de direito Elle Woods de ‘Legalmente loira’ que ela conquistou o público de vez. Desde então foi uma sucessão de boas bilheterias que culminou em um Oscar de melhor atriz por ‘Johnny e June’, onde interpretou a cantora June Carter. Foi uma das atrizes mais bem pagas de Hollywood e mostra destaque até hoje seja na comédia, seja em dramas. Entre seus trabalhos estão ‘E se fosse verdade’ e ‘Doce lar’.

Aspirante ao posto – Renée Zellweger.

Cena inesquecível – Elle Woods ganhando seu primeiro grande caso em ‘Legalmente Loira’ porque a assassina esqueceu as regras básicas de um permanente. Perfeito!

Por que perdeu a coroa? – O gênero deu uma certa esfriada e desde então não há uma atriz emblemática representando as comédias românticas. Poucos são os grandes lançamentos e apesar de sucessos ocasionais, muito possivelmente por um interesse maior do público em outros tipos de filmes, as comédias românticas parecem meio em baixa em Hollywood. Talvez porque tudo tenha se tornado mais do mesmo? Quem sabe? Algumas atrizes deixaram suas marcas a partir de 2010 como Amanda Seyfried, Rachel MacAdams, Emma Stone, Amy Adams, Jeniffer Aniston e Anne Hathaway, mas nenhuma a ponto de clamar para si a coroa.

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