Construindo pontes…

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Confesso que gostaria de ver a vida em preto e branco, dividindo tudo entre bom e mau, certo e errado, direita e esquerda. Seria definitivamente mais fácil adotar o maniqueísmo como filosofia de vida e seguir adiante classificando tudo entre Deus e o Diabo. Pra quem não conhece o Maniqueísmo é uma filosofia dualista criado por Maniqueu filósofo cristão do século III que dividia tudo entre o bom (Deus) e o mau (Diabo).

Porém, eu nunca me permiti ser assim, e por isso pra mim as escolhas, opiniões e conclusões são dadas a partir de pontos de vista diversos, diferentes, complementares ou até antagônicos. Acho bem mais justo e interessante ser assim.

Contudo me parece que hoje em dia o maniqueísmo age sem limites no nosso mundo, e as pessoas propagam ideias, críticas e pensamentos maniqueístas conforme a sua conveniência e bel prazer, elegendo seu ponto de vista como o bem e tudo que lhe é contrário como o mau. Vamos a dois exemplos que eu vi recentemente.

Anda pela internet um GIF onde aparecem 3 homens, o primeiro sem nenhuma bolacha, cabisbaixo, o segundo com duas bolachas com cara de preocupado, e o terceiro homem, todo arrumado, vestindo um terno, com várias bolachas com uma felicidade contagiante. Em determinado momento o terceiro homem aponta para o lado chamando a atenção do segundo homem, desviando a sua atenção e roubando uma das duas bolachas que o segundo homem tinha. A legenda era para explicar facilmente o capitalismo, mostrando que nele as elites sempre se aproveitam dos trabalhadores pobres e indefesos.

É de um maniqueísmo juvenil achar que todos os ricos são exploradores, trapaceiros, embusteiros ou salafrários, pois evidentemente nem todos agem assim. Aliás, sequer temos como dizer que a maioria dos ricos são assim, porque nunca conseguiremos avaliar 100% das pessoas e analisar suas motivações e ações integrais. Além disso, o capitalismo foi o sistema que até agora mais foi capaz de gerar crescimento e oportunidades no mundo, e é um fato consumado, ele não será suprimido da noite pro dia.

Assim, esse GIF mais serve como uma forma de reforçar uma ideia preconceituosa do que contribuir para o debate sobre uma sociedade mais justa e ao aprimoramento do sistema vigente.

Passemos a explorar um outro exemplo.

Não são poucas as críticas de uma parcela da população ao bolsa família e ao sistema de cotas em universidades. Muitas das pessoas julgam que o sistema é ruim pois tem cunho assistencialista e nenhuma meritocracia. Alegam que o governo distribui dinheiro em troca de votos, o que fraudaria o sistema democrático. Para essas pessoas o assistencialismo é o mal encarnado que deseduca a população que não se vê incentivada a produzir e tocar a sua vida. Já o bem seria a meritocracia por trás do trabalho árduo do indivíduo.

Contudo, hoje está comprovado que os dois sistemas introduzidos no Governo Petista foram grandes e importantíssimos programas de redistribuição de renda e inserção social, transformadores da nossa sociedade e que impactaram positivamente a vida milhões de brasileiros. Sem eles essa parcela expressiva da população não teria conseguido sair da miséria, não teria conseguido acesso à educação e novas oportunidades de trabalho e estariam ainda lutando simplesmente para ter o que comer no final do dia.

Dessa forma, criticar esses programas sociais e o assistencialismo é uma forma simplista de ver a vida e de tratar os problemas de uma grande parte da população, que nunca teve possibilidade de alcançar nada além da sua mera sobrevivência.

Esses dois exemplos nos mostram de forma bem clara, como pensamentos simplistas e tendentes a separar as coisas entre bem e mal, certo e errado, justo e injusto, nem sempre são eficazes e suficientes para uma melhor análise dos problemas das sociedades modernas. Essa prática dualista e segregacionista tende a ser produto de uma análise superficial, de julgamentos apressados e incompletos, que falam com base mais nos preconceitos e valores prefixados de quem fala do que em dados estatísticos e análises objetivas isentas.

Mas você pode estar se perguntando, porque eu estou escrevendo toda essa baboseira? Porque hoje em dia vemos muita gente falando, escrevendo e compartilhando em redes sociais bobagens sem tamanho, só porque não sabem refletir sobre nenhum assunto sério, não sabem debater e ouvir os argumentos dos outros, não sabem levar em consideração o pensamento e as ideias dos demais e saem criticando e vociferando contra tudo e contra todos. Se tornam donos das verdades e julgam, condenam e excluem as pessoas que simplesmente tem outros pontos de vistas como se sua própria opinião fosse o “bom” e as opiniões contrárias fossem o “mau”. E isso se repete na vida privada, na vida política, na vida religiosa e por aí vai…

E isso é muito ruim, pois muitas vezes a pessoa que tem uma posição diferente da nossa por muitas vezes pode nos dar uma nova visão do assunto se tiver a oportunidade de expor suas ideias e se estivermos dispostos mesmo a ouvir. Se tivermos a capacidade de ouvir e refletir sobre diversos pontos de vista acabaremos por construir opiniões mais sólidas, mais fundamentadas e até mais justas.

E por que isso é tão importante nos dias de hoje? Porque precisamos urgentemente de mais conversa, mais entendimento e mais consenso para transformar nossa vida, nossa sociedade e tratar dos nossos problemas com mais profundidade. E não é só no Governo que isso é necessário, é em nossas vidas cotidianas, nossos trabalhos, nossos relacionamentos.

Claro que eu não defendo os acordos feitos por baixo dos panos ou conchavos. Isso não é entendimento, e sim negociata barata. Muito pelo contrário, o que eu defendo é um debate franco, com posições claras, argumentos fundamentados e objetivos definidos, para que a sociedade avance como um todo.

A construção de entendimentos é a única forma capaz de acalmarmos os ânimos, fazermos com que todos se sintam ouvidos, levados em consideração e respeitados dentro da nossa sociedade. Não é menosprezando ou reduzindo a nada o argumento do outro que conseguiremos isso, pois assim só estamos desrespeitando o outro e gerando mais ódio e incompreensão.

E pra isso funcionar a empatia e a humildade são essenciais. Se colocar no lugar do outro para entender as suas razões e reconhecer que não sabemos tudo e podemos estar errados são as atitudes que possibilitam esse debate franco e profundo. Infelizmente essas características andam em falta no povo brasileiro e devem ser urgentemente resgatadas.

Assim, espero que possamos refletir sobre isso, para podermos mudar os rumos das nossas vidas e do nosso país. Vamos deixar Maniqueu na Idade Média… Avançar é preciso!

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