Deixem o Caetano em paz!!!

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Cada vez mais a nossa sociedade se esmera em dar exemplos de como ainda somos retrógrados, superficiais e tendentes a julgar e condenar tudo aquilo que não nos agrada.

Nessa semana em uma foto postada no Instagram de sua produtora, o cantor Caetano Velloso despertou uma série de sentimentos de desprezo, chacota e ridicularização na população brasileira. Na foto Caetano está recebendo o carinho de dois artistas em seu camarim, vestindo apenas cuecas e meias pretas.

Imediatamente as pessoas começaram a destilar toda a sua maldade gratuita pela internet, atacando a forma física do cantor, a suposta necessidade de holofotes por parte dos três artistas na mídia e a falta de decoro por estar de cuecas… Escutei inclusive comentários maldosos e cretinos em algumas rádios, proferidos por radialistas jovens, que sequer começaram em suas carreiras e se acham no direito de julgar e condenar alguém por uma simples foto…

Lamentável! É profundamente triste ver que em pleno ano de 2015, com tanta coisa acontecendo no Brasil e no mundo, esse tipo de coisa ainda vire notícia repetida à exaustão e ainda percamos nosso tempo tendo esse tipo de reação.

Sejamos claros, Caetano, ou seja lá quem for, tem o pleno direito de tirar quantas fotos quiser, de todos os jeitos que quiser, vestindo o que mais lhe aprouver e isso não nos dá o direito de postar comentários agressivos, ofensivos e mal-educados. Quem foi que disse que foto só pode ser tirada com determinado senso estético? Quem tem direito de ditar o que e como irá compor uma foto? Ninguém!!!

Mas esse artigo não é uma declaração pela liberdade da atividade fotográfica, mas sim um artigo contra o estabelecimento forçado de padrões estéticos e contra o escárnio generalizado que acontece quando esse padrão estético não é seguido.

Vamos analisar bem. Se se tratasse de um artista jovem e com o corpo definido, certamente a tônica da matéria seria para destacar a boa forma física e o apelo sexual do artista. Já dá até pra imaginar a chamada nos sites de notícias: “Fulano de Tal mostra boa forma depois de se apresentar em show histórico na Suíça!”. Se fosse uma mulher sarada então a reação seria ainda mais contundente.

Assim, se percebe facilmente que nossa sociedade condena a velhice, quer escondê-la debaixo de camadas e mais camadas de roupas, aplicações e mais aplicações de Botox ou nos fundos das nossas casas, para que não sejamos expostos aos efeitos inexoráveis do transcurso do tempo e àquilo que não consideramos como valor.

É de se pensar no que há por trás dessa nossa visão de vida concentrada no culto da juventude efêmera, de onde veio e porque se mantém até hoje, porque há muito tempo não somos mais o país jovem do futuro. A maturidade chega para todos, e hoje nossa população idosa cresce cada vez mais, seja pelo avanço tecnológico, seja pela maior qualidade de vida, o que faz a expectativa de vida crescer cada dia mais.

Nesse contexto, temos que repensar nossa relação com a maturidade, respeitando e valorizando e nunca ridicularizando ou condenando.

Ser idoso não nos impede de continuar vivendo. Não é porque atingimos determinada idade que somos obrigados a deixar de fazer as coisas, como por exemplo tirar uma foto mais descontraída ou por exemplo frequentar uma praia vestindo biquíni, como fez a atriz Betty Faria há alguns anos, quando também foi extremamente criticada e ofendida pelo simples fato de ter mais idade, vestir um biquíni e ir à praia com a neta. O que se esperava? Que ela não frequentasse mais a praia? Que ela fosse se banhar usando uma burca pra não aparecer nenhum pedaço de pele?

Ora, tanto o Caetano quanto a Betty não deveriam nunca ter vergonha de seus corpos e da idade que têm, não devem nada a ninguém, são talentos inegáveis em suas áreas profissionais, donos de carreiras brilhantes e vidas pessoais riquíssimas de histórias e experiência, e por isso deveriam ser reverenciados e não chacoteados.

Todos nós podemos chegar na idade deles e também teremos os mesmos direitos de tirar fotos, ir à praia e viver do jeito que nós quisermos, sem que isso dê aos outros o direito de nós ofender e nos condenar ao exílio, ao banimento para o interior das nossas casas ou para o interior de roupas largas, longas e escuras só por sermos velhos.

E alguns podem estar pensando, mas eu não sou obrigado a gostar da foto. Não mesmo! Gostar ou não gostar é problema e uma decisão inteiramente seus! Porém, o fato de não gostar não nos permite tripudiar, criticar ou ofender. Não gostou? Ótimo, guarde para si essa opinião e vá viver sua vida sem falar mal dos outros.

Se chocou com o fato dele estar vestindo só cuecas? Bom, agora me explique, qual é a diferença de uma cueca para uma sunga utilizada na praia na frente de toda a família tradicional brasileira? Talvez só a abertura frontal, o que no caso não deixou transparecer nada demais na foto em questão. Assim, cuecas não são um atentado ao pudor, aos supostos bons costumes ou a senso “estético” da maioria. Vamos e convenhamos, no nosso dia-a-dia nós presenciamos e vemos coisas muito piores em relação à nudez do que uma simples foto de cuecas que nem revela nada demais.

Já está na hora de evoluirmos enquanto sociedade para deixarmos para trás essas práticas ofensivas a tudo a que não gostamos. Cada um de nós não tem poderes divinos e supremos para obrigarmos os outros a agirem de acordo com o que nós gostamos, acreditamos ou valorizamos, pois todos são livres para fazerem suas escolhas, agirem como melhor lhes pareça, sendo respeitados em suas decisões.

Temos que amadurecer e deixar de ser o país da crítica hipócrita para sermos o país do respeito à liberdade e aos indivíduos!!!

1 COMENTÁRIO

  1. Caro Gui,

    É tão verdade tudo o que você escreveu, que no mesmo dia foram publicadas fotos do Gustavo Lima somente de sunga no novo iate que ele comprou e até onde eu saiba ninguém achou isso um absurdo.
    Hipocresia em suas mais diversas facetas.

    Abraços, Sam.

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