Homossexualidade e trabalho: Um gay no mundo corporativo

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Homossexualidade e trabalho

Na minha carreira profissional enfrentei grandes desafios, muitos relacionados ao próprio trabalho, mas alguns relacionados a nada além da minha sexualidade.

Nasci com possibilidade de acessar diversos privilégios, afinal sou um homem branco e cisgênero.

Não fosse o fato de eu ser gay, o mundo talvez fosse meu playground, por onde eu passaria com toda facilidade reservada aos que atendem as normas predominantes da nossa sociedade.

Mas tive a sorte de nascer com algo que me fez sair e questionar esse sistema vicioso e nocivo.

A vantagem de não fazer parte do sistema, é poder olhá-lo de fora e perceber sua construção nefasta, que marginaliza muitos em defesa de estereótipos questionáveis e limitadores.

Cresci na periferia de São Paulo, regiões costumeiramente mais intolerantes e violentas, então o preconceito na escola, nos lugares públicos e mesmo entre meus vizinhos permeou toda minha infância, minha adolescência e minha juventude.

Se hoje existe mais tolerância nessas regiões em capitais como São Paulo, não saberia dizer. Mas na minha época, a coisa ia da grosseira verbal à violência física.

Eu mesmo, além da violência verbal, quase perdi minha vida em um ataque homofóbico quando ainda era uma criança (fugi, para sobreviver).

Ao entrar no mundo do trabalho, o preconceito saiu da ofensa direta, e foi para o velado.

Entre os comentários silenciosos, piadas às escondidas e observações jocosas, construí minha trajetória enfrentando alguns bons desafios.

Homossexualidade e trabalho: Contextos que moldaram meu comportamento

Percebo que na maioria das vezes, quando entro em um novo emprego, em uma nova equipe ou mesmo em um novo projeto, velhos desafios tendem a reaparecer.

Normalmente começa com aquele olhar dizendo “humm, acho que ele é gay”, e depois aparecem os comentários discretos e em tom baixo como se esse segredo fosse quase criminoso.

Quando vem à tona que não guardo segredo a respeito disso, parte dos comentários perdem o fôlego e silenciam, afinal a fofoca morre quando não existem segredos.

Contudo, eu percebo que em muitos momentos na minha carreira eu tive que trabalhar mais que meus colegas heterossexuais para ser tão reconhecido quanto eles.

Não foi em todos os lugares em que trabalhei e isso parece que vem diminuindo no mundo corporativo com o qual eu tenho contato.

De qualquer maneira, em alguns lugares pelos quais passei, esse desafio me levou a trabalhar muito para provar que “apesar de ser gay…” eu era um excelente profissional.

Hoje me pergunto se acabo me dedicando mais que a média das pessoas por ainda ter na mente resquícios dessas fases.

Afinal, seja no mundo corporativo ou mesmo no mundo acadêmico, sempre trabalhei muito para me provar e calar os comentários de descrédito.

O julgamento de que eu não seria capaz de fazer algo pelo simples fato de eu ser um homem gay feminino (e sem falar do gordinho nessa equação), esteve presente em muitos momentos e minha defesa foi trabalhar ou estudar mais que a maioria das pessoas ao meu redor para superar isso.

Não digo que isso é uma solução, nem que não seja, afinal cada pessoa vive em seu próprio contexto e irá encontrar seu próprio jeito de lidar com os desafios que aparecem em sua vida.

O meu foi me dedicar mais, seja para calar as vozes veladas do preconceito, seja porque muitas vezes eu tinha de me virar sozinho para encontrar respostas e fazer as coisas.

Ou seja, nem sempre isso foi uma opção da minha parte, mas era um caminho necessário pelo simples fato de não ter ajuda de outras pessoas e saber que no fim do mês os boletos continuariam vindo.

Isso sem falar da infantilidade de alguns homens heterossexuais que, amedrontados e inseguros, agem como se o fato de eu ser gay, me fizesse automaticamente um predador sexual dele, me levando a agarrar-lhe o pênis na primeira distração cometida pela sua virilidade aparente.

Homossexualidade e trabalho: ética construída a ferro e fogo

Passando por tudo que passei, hoje percebo o quanto levo certas coisas em consideração na hora de me relacionar profissionalmente com outras pessoas.

Tenho uma noção muito clara dos meus comportamentos, daquilo que acredito ser certo ou não fazer.

Raramente julgo alguém ou falo coisas negativas.

E digo raramente, porque também não sou perfeito e algumas vezes caio nessas armadilhas.

De qualquer maneira, tenho um conceito muito forte do que eu considero ético dentro do trabalho e das relações interpessoais nesses ambientes.

Boa parte desse conceito veio das minhas experiências, dos estudos, das reações e do comportamento que desenvolvi para enfrentar meus muitos desafios profissionais.

Homossexualidade e trabalho: Respeitar e ser respeitado acima de qualquer coisa

Os níveis e a presença do preconceito diferem muito dependendo da profissão e da empresa por onde passamos.

Eu diria que minha carreira figura em um intermediário entre a aceitação e o preconceito.

Nesse sentido, tive muito mais facilidade que outros profissionais em carreiras mais tradicionais e normativas.

E mesmo o fato de eu ser um homem, branco, cisgênero facilitou bastante minha trajetória.

Ainda assim sei o quanto os desafios influenciaram e ainda influenciam minhas decisões e escolhas.

A vantagem é que ter isso consciente me força a também ter noções claras de como agir com outras pessoas.

Essa é uma das muitas coisas boas de ter sido expelido do sistema atual e poder questioná-lo a fim de repensar nossa cultura para abraçarmos a diversidade.

E fica a mensagem (pela enésima vez) de que sexualidade não deve ser motivo para julgar o profissionalismo alheio, ou julgar qualquer outra coisa.

Afinal, no fim, isso não lhe diz respeito mesmo.

Referências
Imagem da capa;

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