O que faremos quando o tempo impactar nossos corpos esbeltos?

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Vivemos a era da estética, deixamos de ser homo sapiens para nos tornar homo videns, ou seja, somos agora a espécie que vive para ver, tudo é espetáculo, tudo é para ser consumido visualmente.

Por isso não é surpresa o proliferar das selfies, autoimagens feitas com celulares e suas poderosas câmeras cheias de pixels, somadas aos interessantes filtros que maquiam a realidade para torna-la mais bela e mais consumível por nossos olhos famintos.

Unindo isso aos softwares cada vez mais eficientes em modelar o corpo e o rosto de belos modelos – ou até mesmo de um pedaço de pizza, como vemos no vídeo abaixo – somos inundados por padrões impossíveis que se tornam nossas referências para o que é considerado belo ou atraente.

Desse modo, por mais que malhemos enlouquecidamente e gastemos todo nosso salário em tratamentos de beleza, sempre nos sentiremos incompletos e distantes do que se considera bonito.

Esse vazio provocado a cada nova capa de revista ou ensaio fotográfico é deliberadamente uma estratégia para que continuemos a consumir desenfreadamente qualquer nova promessa de nos tornar mais completos ou de nos fazer sentir mais importantes ou especiais.

Portanto, seja o botox ou o celular mais recente (e inútil) lançado pela indústria, a solução para nos sentirmos mais felizes, bonitos ou importantes parece sempre estar além de nós mesmos, em algum objeto ou serviço que possa ser adquirido, afinal, em um mundo capitalista, do que adiantaria encontrarmos nossa felicidade em algo gratuito?

Uma das coisas mais preocupantes nisso é que essa busca desenfreada pelo ideal estético digitalmente manipulado gera mais transtornos do que benefícios – se é que ela gera algum benefício.

Sejam as doenças psicológicas como a depressão, a síndrome de pânico e anorexia ou mesmo doenças físicas diversas, a pressão que sofremos para estarmos dentro desses padrões parece consumir cada vez mais de nosso tempo e de nossa vida.

O desafio nisso é que para nos livrarmos dessas influências, precisamos nos voltar para nós mesmos e trabalhar mais a introspecção e as capacidades do homo sapiens.

Porém estas habilidades não convivem bem com a superficialidade, pois para se construir um repertório intelectual é necessário tempo e muito trabalho, ambos recursos que provavelmente já estejam sendo usados para a academia ou para o evento que vai rechear nossas redes sociais de fotos e – tomara – de alguns “curtir”.

A dúvida que me assombra agora é, o que faremos quando a gravidade e o tempo cobrarem seu tempo em nossos corpos esbeltos? Nos plastificaremos ainda mais, sofreremos a dor de sermos “coisas vencidas” ou teremos o repertório para vivenciar uma velhice saudável?

Talvez valha a provocação de tentar tirar o melhor dos dois lados para sermos mais fortes e completos, mas tudo isso se for válido para nós.

Portanto, construa seu corpo esbelto, se assim o desejar, mas construa também seu repertório intelectual, pois este lhe será útil em algum momento.

E no mais, continuemos firmes e fortes.

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