O rapto do beijo pelo machismo arraigado

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Sempre que alguém me diz a frase “… você sabe que eu não sou preconceituoso, mas…” eu paro a pessoa imediatamente e digo “cuidado com o que você vai dizer a seguir pois para isso ser verdade vai depender muito mais do conteúdo da segunda frase do que a expressão da primeira…”.

E na última vez que eu ouvi essa frase ela foi dita por uma das pessoas que eu mais amo no mundo, que aprendeu a aceitar e respeitar minha homossexualidade e que se esforça muito para ser uma pessoa melhor a cada dia. Mas isso não a impede de errar, mesmo querendo acertar, assim como todos nós erramos…

E continuando, a pessoa disse que achava que as duas senhoras idosas da novela não deviam se beijar em público, porque era um ato íntimo que deveria ser restrito aos lares das pessoas envolvidas e que não pegava bem duas idosas se beijarem em público.

Esse posicionamento traz em si uma série de questões que devem ser debatidas à exaustão por nossa sociedade para que possamos evoluir coletivamente.

O preconceito é evidente, está ali escancarado, afinal, quando um homem e uma mulher idosos se beijam na rua, as reações são sempre positivas, no sentido de acharem uma graça essa manifestação de um amor supostamente lindo e duradouro, ainda que na intimidade muitas vezes não haja nada disso naquela relação em si, o casamento seja de fachada e na intimidade eles nem se suportem.

Mas enfim, fato é que se um casal heterossexual de qualquer idade se beijar na rua não haverá nenhuma manifestação de censura, nenhuma reação negativa, muito menos agressão e crime como no caso dos homossexuais, a quem não é dado o direito de expressar seu afeto publicamente, sob risco de agressão, humilhação e até morte, mesmo em grandes centros como Rio de Janeiro e São Paulo.

Mas na verdade o que eu quero falar não é sobre o preconceito em si, mas sim sobre o machismo arraigado por trás da condenação do beijo entre duas senhoras.

Mas você pode se pegar pensando, porque ele considera haver machismo nessa situação? Porque um dos pilares do machismo é a objetificação das mulheres enquanto desejo sexual dos homens, subjugada ao prazer deles, nunca ao delas. Nesse contexto, os homens acham normal e desejável ver duas mulheres se beijando, desde que elas sejam jovens, bonitas e integrem seus sonhos eróticos.

Porém, se esse ideário é quebrado e elas não são jovens e bonitas, o machismo impõe seus valores e proíbe essa expressão de amor, ou se permite, obriga que ele seja reservado e escondido, longe dos olhares da suposta “boa e tradicional” família brasileira.

Vale lembrar que tanto homens quanto mulheres podem ser machistas, basta que concordem e repitam tais posições, valores e preconceitos.

Uma forma de comprovar que há machismo na situação é quando comparamos a reação a situações idênticas onde se substitui apenas as pessoas envolvidas. Se fosse um beijo leve entre homem e mulher de quaisquer idades, não haveria problema nenhum. Se você substituir o homem por uma mulher e forem duas mulheres jovens se beijando, com certeza a reação da maioria esmagadora dos homens e de boa parte das mulheres seria pela normalidade. Já se você substituísse as mulheres jovens por mulheres idosas, aí você teria a reação que de fato aconteceu, muitos comentários e muita gente condenando.

Assim o machismo diz que é errado duas idosas se beijarem na rua, mas aplaudem, incentivam e se excitam quando duas mulheres bonitas, esculturais e sensuais se beijam seja em que ambiente for.

Esse machismo seletivo impõe padrões comportamentais baseados nos conceitos e desejos dos homens enquanto classe superior, que dita o que é desejável e quanto muito permite ao diferente se expressar só dentro da sua intimidade, fora dos olhos da sociedade.

Porém, nos cabe questionar se nós devemos compactuar com essas posições, que limitam o amor e a afetividade a um modelo heteronormativo extremamente limitado e menor do que as aspirações de grande parte de sua sociedade.

Hoje é dominante em nossa sociedade ocidental a ideia de que ninguém tem o direito a determinar quem iremos amar. É absurdo pensarmos em casamentos arranjados pelos pais ou pela sociedade e até já estamos aceitando com relativa normalidade a existência de casais com idades diferentes. Porém precisamos dar um passo além, garantindo o mesmo direito de escolha quando o outro ser amado é do mesmo sexo ou de idades avançadas.

Para desespero dos machistas, o amor não segue regras, não se limita a papéis pré-estabelecidos, nem se conforma com segunda opções. Quem aceita isso vive melhor, mais feliz, mais pleno e pode levar uma vida verdadeira e saudável.

Há quem viva uma vida inteira sem aceitar isso, acabando ou frustrado, querendo em vão impor suas visões de mundo aos outros, ou agressivo e revoltado, machucando quem não compartilha dessa mesma limitação. Em todos os casos é triste ver uma pessoa se destruir ou destruir aos outros por causa disso.

Devemos compreender que o amor se manifesta em diversas situações e todas elas são válidas e merecem ser celebradas e principalmente respeitadas por todos nós, independente daquilo que consideramos “normal”. Só assim faremos uma sociedade ampla, inclusiva, justa e sadia. Viva a diversidade!

1 COMENTÁRIO

  1. Gui…Adorei seu texto e achei de muito bom tom suas colocações. Infelizmente ainda existam pessoas de mente fechadas, que ainda pensam de forma pequena em relação a diversidade. Mas é como você disse: as vezes muitas coisas ou relações são ds fachadas ou de mentira e pessoas mesmo assim apoiam e aplaudem por não saber da real verdade e essas que aplaudem as vezes são as mesmas que condenam um beijo ou um simples gesto de afeto entre pessoas do mesmo sexo e que se amam verdadeiramente. Lamentavél isso! O importante na minha opinião é continuar nosso caminho sem olhar para essas pessoas, se elas não tem respeito por algum motivo, não vai ser eu que vou julga-la…um dia a própria conciência dela própria dará a chance dela se auto avaliar e chegar no seu conscenso…agora se nem assim mudar, ai já muito mediolcre e ruindade mesmo! Bjos querido

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