V de Vingança e a Televisão

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Ontem tive a oportunidade de rever o filme V de Vingança baseado na obra de Alan Moore, e, em tempos em que o show de realidade mais famoso do Brasil volta em sua 14° edição, foi inevitável pensar no velho dilema a respeito da qualidade das produções televisivas.

No filme, assim como em outras obras incríveis do gênero como, por exemplo, 1984 de George Orwell ou o Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, um governo totalitário toma posse e se torna controlador de tudo o que acontece em um vigiado país. Sem tentar fazer maiores leituras do enredo (e várias são possíveis), me apego agora ao descaramento das mentiras expostas na BTN, única emissora de televisão do país e, claro, controlada pelo governo.

A questão na televisão é que seu viés para o espetáculo pode sim tornar o cidadão tão anestesiado que ele pode ser alienado de sua responsabilidade com o que acontece em sua própria sociedade.

Porém no filme essa responsabilidade é devolvida ao povo justamente pela tevê quando o personagem principal, V, discursa e desmascara a responsabilidade pelo absurdo vivido devido à apatia de um povo que aceitou tudo de forma passível e submissa (Orwell também retoma essa questão brilhantemente em A Revolução dos Bichos).

Mas antes de demonizar a televisão, é importante lembrar que a radiofusão ao ser desenvolvida não tinha o objetivo de distrair o povo de forma passiva.

Em seu início, a radiofusão tinha como objetivo transmitir programas educativos e que refinassem a formação intelectual do povo, inclusive se almejava que o indivíduo pudesse, entre outras coisas:

  • Interferir sobre a informação;
  • Manifestar-se livremente;
  • Produzir programas que gerassem reflexão e questionamentos.

Aliás, atualmente, mesmo na tevê aberta existem programas que seguem esses parâmetros, o que indica que o mal não está no meio que transmite a informação, mas possivelmente na forma como o conteúdo é transmitido.

Para entender mais sobre isso retomo algumas definições desenvolvidas para generalizar nossa espécie, vejamos:

Homo Sapiens: Popularmente nós, seres humanos, somos definidos como homo sapiens, ou homem sábio. Isso quer dizer que temos capacidades inerentes à nossa espécie que nos diferenciam ou nos auxiliam a evoluir, tais como:

  • Raciocínio abstrato;
  • Linguagem;
  • Introspecção;
  • Capacidade para resolução de problemas.

Homo Faber: O Homem Fabricador é o técnico que constrói ferramentas e transforma a natureza para viver melhor.

Homo Ludens: Outra definição aplicada em alguns estudos é o Homem Lúdico que percebe a cultura e a vida como um jogo, neste caso tudo é (ou deve ser) entretenimento.

Homo Videns: Já o Homem Visual representa uma situação onde tudo é visual para o indivíduo que vê (e somente vê).

Muito além de simplesmente separar indivíduos nessas definições, a intenção é ver algumas facetas que todos nós compartilhamos em determinados momentos da vida.

Porém mais especificamente com a televisão o que pode preocupar é quando a qualidade de seus programas incentiva o homo ludens, ao oferecer entretenimento e diversão com referências imediatas, e agradar ao homo videns transformando tudo em espetáculo visual, ou seja, pura imagem.

Quando trabalha nesse campo, a televisão pode ir contra a promoção do homo sapiens e sua capacidade de dedução e abstração, fazendo nascer e crescer um indivíduo que apenas olha sem desenvolver suas capacidades cognitivas.

Assim, não questionamos, não refletimos, apenas absorvemos instintivamente e indiscriminadamente, ou ainda, vemos, mas não entendemos; olhamos, mas não refletimos.

Contudo, a partir do treinamento e incentivo ao uso dos recursos do homo sapiens, qualquer obra pode ser interpretada profundamente, cabendo ao indivíduo saber enxergar e refletir sobre os fatos, sejam eles shows de realidade ou notícias de um jornal.

A grande pergunta é como incentivar o homo sapiens em um cenário com predominância de obras puramente lúdicas e visuais?

Infelizmente a resposta talvez seja muito mais individual do que social. Talvez devamos seguir a filosofia do filme Corrente do Bem e incentivar três de nossos amigos a se tornarem mais sapiens, motivando-os a fazer isso com três de seus próprios amigos.

Talvez uma mudança da base para topo possa motivar o nascimento de programas que entretenham e que sejam espetaculares, mas que também incentivem a mente do homem sábio porque eu, pelo menos, não acredito muito no conceito de uma mudança paradigmática que venha do topo para base.

Íntegra do Discurso de V na BTN

 

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