Velhice LGBT: Desafios de uma população que pode envelhecer sozinha

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Velhice LGBT foi o assunto de um seminário em São Paulo que reuniu diversos especialistas para debatermos sobre como encarar mais essa fase da nossa vida.

O 1° Seminário sobre Velhice LGBT

Sempre me preocupei com minha velhice, com idade quando meu corpo for mais frágil, minha saúde menos vigorosa e talvez minha mente menos ágil.

Logo, foi instantâneo meu desejo em participar do 1° Seminário Velhices LGBT: A invisibilidade de um passado histórico, a esperança de um futuro de glória organizado pela ONG EternamenteSou e realizado no dia 25 de novembro de 2017 no Instituto Carrefour, em São Paulo.

Fiquei surpreso ao saber – durante o evento –, que aquele seria talvez o primeiro evento que abordava essa temática tão importante.

A verdade é que falamos pouco sobre esse assunto, mesmo sabendo que nossa sociedade vem envelhecendo rapidamente e será necessária uma ação ativa e consciente para acolhermos nossa futura população (na qual eu mesmo me enquadro).

Aprendi muito com a riqueza das palestras e dos convidados, e pude ver que não estou sozinho nessa trilha de descobrir como será nossa velhice.

Compartilho agora algumas coisas que aprendi durante esse fantástico evento na esperança que essa discussão se torne ainda mais difundida.

A velhice possível

Assim como podemos idealizar uma juventude quase mágica durante a infância, podemos cair na armadilha de idealizar uma velhice improvável durante nossa vida adulta.

Aliás, por vezes percebemos que as pessoas costumam agir de duas maneiras frente a velhice: ou a tornam invisível, negando-a; ou a tornam fantasiosa mascarando a futura realidade com possiblidades de recursos tecnológicos como plásticas, academias, suplementos, transplantes e outros para a construção de uma juventude eterna.

Seja como resultado de uma sociedade que valoriza a juventude como a mais nobre das fases, seja pelo medo que essa fase da vida pode trazer ao tornar mais presente a consciência da morte, a verdade é que enfrentar a velhice com lógica e tranquilidade nem sempre é a mais fácil das tarefas.

Talvez o primeiro passo para lidarmos com essa fase da vida seja evitarmos cair na armadilha de olhar para a pessoa idosa como um estereótipo e isso tanto para o ideal do bom velhinho quanto para o conceito de hiper-fragilidade.

Sim, haverão pessoas que precisarão de ajuda e haverão bons velhinhos e boas velhinhas, mas isso não é regra e mascara o entendimento de que a pessoa idosa é, antes de tudo, uma pessoa com uma trajetória de vida única que a levou até essa fase da vida.

Enxergar cada pessoa como um individuo dotado de sua própria personalidade é um fator decisivo para fugirmos das ideias pré-fabricadas de velhice e começarmos a compreender essa fase como um momento único e particular na vida de cada pessoa.

Assim, talvez possamos começar a parar com as atitudes discriminatórias e aceitar nossa própria velhice possível, que será resultado das nossas escolhas, da nossa trajetória e até da nossa genética.

Velhice LGBT - Wang Deshun
Wang Deshun – Modelo chinês com 80 anos (Referência: Dra. Naira Dutra Lemos)

Ou seja, não precisamos ser Wang Deshun (modelo chinês com 80 anos – foto), e nem por isso seremos um velhinho andando com bengala como mostra o atual ícone que representa a pessoa idosa em espaços públicos.

Velhice LGBT - Idoso de lugares públicos
Atual placa de pessoas idosas em espaços públicos (Referência: Dra. Naira Dutra Lemos)

Somos influenciados por diversos fatores 

A verdade é que as fases de nossa vida são construídas gradativamente, e não de uma hora para outra, e nessa trajetória muitos fatores influenciam na maneira como vamos perceber a nossa vida.

Aspectos como, por exemplo, o gênero, o estado civil, o poder aquisitivo, as condições de saúde e até nosso estilo de vida vão alimentar a dinâmica das nossas relações e a maneira como percebemos nossa realidade.

E para a velhice, quanto mais independente a pessoa idosa for, maior a probabilidade dela se sentir mais realizada.

O grande desafio é que nessa fase da vida nos tornamos mais suscetíveis a possíveis problemas de cunho biológico, psicológico e social, podendo até precisar de ajuda para realizar tarefas cotidianas mais simples, como vemos na escala de Guttman abaixo.

Velhice LGBT - Hierarquia das atividades Guttman
(Referência: Dra. Naira Dutra Lemos)

O mais importante nesse cenário é criar espaços e contextos onde a pessoa idosa possa continuar se realizando como individuo nas mesmas esferas que jovens e adultos, uma vez que continuamos tendo as mesmas necessidades e anseios básicos, mesmo envelhecendo.

Aqui vale um esforço do setor público e dos movimentos sociais para construir esses espaços e políticas de inclusão que contribuam para minimizar os desafios do avanço da idade e ampliar a capacidade das pessoas idosas de se realizarem e continuarem ativas, contribuindo e se sentindo úteis.

Essas iniciativas é o que compõem o envelhecimento ativo, uma proposta para pensarmos e nos prepararmos para a velhice. 

O envelhecimento ativo

O principal objetivo do envelhecimento ativo é proporcionar a satisfação com a vida para as pessoas idosas.

Isso pressupõe melhorarmos a estrutura e a oferta de serviços para a saúde, para a participação na sociedade, para a segurança social e individual, para o gerenciamento do capital intelectual e para a segurança financeira das pessoas idosas.

Também traz questões sobre como proporcionar autonomia, independência, qualidade e expectativa de vida saudável para essa parcela da população.

Com isso, podemos continuar praticando nossos papeis sociais, exercitando nossa capacidade funcional, mesmo em idade mais avançada, o que pode deixar essa fase mais prazerosa.

Contudo, uma vez que as políticas públicas não estão preparadas para essa realidade ou mesmo para envolver essa parte da população, precisamos cada vez mais fortalecer nossa rede social informal para criar e utilizar esses espaços e contextos.

É neste aspecto que ser LGBT pode tornar a velhice ainda mais desafiadora.

A formação de redes sociais fortes 

Humanos precisam de outros humanos para viver e serem felizes, isso independente da idade.

Nossa característica social inclusive foi grande responsável por nossa sobrevivência e evolução, portanto retirar pessoas idosas do convívio interpessoal rico e diverso não só é cruel como é desumano.

Contudo, parte da nossa estrutura social vem de construções antigas, criando um cenário onde nossas relações ainda sobrevivem em algumas esferas mais tradicionais como a da família, dos amigos, da comunidade e por fim do Estado.

Velhices LGBT - Esferas das redes sociais
(Referência: Dra. Naira Dutra Lemos)

Todas essas esferas influenciam para uma vida mais plena na velhice, por oferecerem recursos e contextos para a satisfação com a vida.

A pessoa LGBT, contudo, pode ter maiores dificuldades no âmbito da família, dos amigos e da comunidade, o que influenciará diretamente na qualidade de vida dessa pessoa na fase da velhice.

Seja pelo preconceito que a expulsa da família, seja pelos amigos que se vão ou pela comunidade que não se foca ou se preocupa com as pessoas mais velhas, a verdade é que estamos pouco preparados para lidar com essa situação quando o assunto é pessoas idosas que, por exemplo, moram sozinhas.

O domicilio unipessoal da pessoa idosa pode ser resultado de diversos aspectos sociais, alguns deles podemos ver na imagem a seguir, mas o fato é que isso pode criar diversos aspectos negativos para essa pessoa.

Velhice LGBT - Morar sozinho
(Referência: Dra. Naira Dutra Lemos)

A questão aqui é quanto mais forte for a rede de suporte social da pessoa idosa, maior a probabilidade dela se sentir plena e satisfeita.

O oposto também é verdadeiro, gerando maior probabilidade de sofrimento e infelicidade nessas pessoas.

Velhice LGBT - Rede de suporte social
(Referência: Dra. Naira Dutra Lemos)

Nesse sentido, a solução mais indicada é a construção e manutenção de uma rede social forte, seja se conectando ou reconectando com amigos, familiares, e mesmo se aproximando de comunidades, ONGs e outras instituições.

Além dessa ação mais informal, também podemos contar com as instituições formais (serviços e instituições que atendem a pessoa idosa) como, por exemplo:

Centros de Cuidado Diurnos (Centro Dia);
Centros de Convivência;
Programas de Atendimento Domiciliar;
Serviços de reabilitação;
ILPI;
Centro de referências;

Porém, apesar de existirem, elas são poucas e muitas delas não são preparadas para pessoas LGBTs, o que significa falta de estrutura e até aceitação da pessoa idosa da nossa população.

Em muitos casos, por terem ligação religiosa, essas instituições obrigam, por exemplo, travestis e transexuais a voltarem aos seus gêneros de nascença para serem aceitas e acolhidas nesses espaços.

Essa violência pode piorar ainda mais o quadro de insatisfação com a vida para pessoa idosa.

Vale aqui um esforço de toda a comunidade LGBT de apoiar o desenvolvimento de instituições voltadas para a velhice que também inclua nossa diversidade.

E nesse sentido temos dois caminhos: um pela influência aos órgãos públicos por meio dos movimentos sociais e outro pela construção de mais instituições/ONGs que tratem do assunto e criem um movimento social mais forte, seja para a conscientização, seja para gerar a pressão necessária para Estado olhar essa situação de maneira mais contundente e criar políticas públicas condizentes.

As políticas públicas e as ONGs

Uma questão muito relevante quando se trata de política pública é que o Estado tende a dar atenção maior ao que tiver mais volume e mais dados envolvidos.

Nossa comunidade LGBT, apesar de gigante, ainda não é bem articulada (e aqui é onde perdemos para os conservadores e religiosos).

Nesse sentido, nossas demandas tendem a ter maior dificuldade de serem observadas pela máquina pública, que ainda é responsável por boa parte dos serviços que precisamos para sobreviver (como saúde e segurança pública).

Aqui vale dois pontos de atenção:

1. Temos que nos organizar melhor enquanto movimento, seja pela construção de ONGs ou instituições formais (como o EternamenteSou está fazendo), seja pelo apoio aos movimentos existentes para torná-los mais fortes.

2. Temos que nos munir cada vez mais de dados e pesquisas e pressionar os órgãos públicos a olharem para nossa situação e trabalharem juntos conosco nas resoluções dos nossos desafios particulares.

Neste último caso, o evento realizado foi fundamental, pois reuniu no auditório representantes das esferas municipais, estatuais e federais para o debate e ainda incluiu representantes de importantes conselhos sociais, como o da pessoa idosa.

Ações como essas representam pequenos passos para nos colocarmos e lutarmos pelos nossos direitos, mas são fundamentais para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

Convido a todos que puderem a ajudar na trajetória dessa ONG, ou de uma outra de sua preferência, para assim nos tornarmos mais fortes.

Sabemos que as batalhas são muitas e podem se tornar ainda mais desafiadoras com o crescimento da intolerância e do fundamentalismo religioso que nos persegue e nos mata todos os dias.

Não será fácil, mas pelo menos podemos fazer isso juntos.

Para saber mais sobre a ONG EternamenteSou basta acessar o site deles, a página no Facebook ou o perfil no Instagram.

No próximo dia 03 de dezembro de 2017 haverá uma feijoada beneficente para ajudar a ONG a se formalizar, para participar acesse o site do evento.

Velhice LGBT - Feijoada benificente

No mais continuem firmes e fortes, construindo fortes redes sociais e contribuindo para nossa comunidade.

E lembrem-se: “A velhice é democrática e chegará para todos nós que estivermos vivos”.

Fotos do evento sobre Velhice LGBT

Referências
Sites
: Eternamento Sou Site; Eternamente Sou Facebook; Eternamente Sou Instagram;

Slides: Dra. Naira Dutra Lemos Assistente social, Profa Afiliada da Disciplina de Geriatria e Gerontologia/ UNIFESP

Imagem da capa: Sol Bergstein (Sam Waterston) e Robert Hanson (Martin Sheen) da série Grace & Frankie – Netflix.

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