Igreja inclusiva, política, ameaças de morte e descoberta pela sexualidade. Estes foram alguns temas do bate papo com o pastor Cristiano Valério da ICM.

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Cristiano Valério Moreira de 38 anos, nascido em Cruzeiro, cidade do interior de São Paulo que fica no Vale do Paraíba. Filho de pais cristãos católicos, sendo o mais velho de sete irmãos, único homossexual e casado há quinze anos, me recebeu no fim da tarde para a entrevista.

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Admito que eu estava um pouco nervoso pois foi a primeira entrevista em que fui realizar sem a presença dos meus companheiros de Blog. Como a timidez é algo que não combina muito com minha pessoa (risos), tratei logo de iniciar o papo falando um pouco sobre o Blog a fim de deixar o pastor Cristiano a par da seriedade, e importância em que seria conduzida nossa entrevista.

Respirei fundo, me concentrei e comecei.

Como e quando você se descobriu homossexual? Como foi esta descoberta pra você?

Pastor Cristiano Valério – Na verdade a minha descoberta começou com alguns sinais bastante sutis. Como acontece com muita gente, a minha foi no início da pré-adolescência.

Uma das primeiras lembranças que eu tenho, foi de perceber que meus primos e colegas que jogavam bolinha de gude comigo na rua, estavam super animados e excitados, vendo algo escondido. Eu muito curioso fui ver o que era, e me deparei com eles vendo uma revista de mulher nua, na hora em que eu olhei aquilo, eles todos animados e excitados, eu pensei… é isso? A primeira sensação que eu tive, era de que aquilo não causava em mim a mesma sensação que causava neles, e a segunda sensação foi de que era melhor eu não contar isso para ninguém e ficar quieto, isto eu tinha por volta de dez anos de idade.

Eu tive vários outros sinais depois disto, na verdade a gente vai se descobrindo com o tempo, a gente não nasce com um manual de instruções de como funcionamos, a gente vai descobrindo como a gente é, e como é o mundo ao nosso redor.

Como foi para você descobrir a religião evangélica sendo criado dentro da religião católica?

Pastor Cristiano Valério – Minha família, como muitas famílias no interior de São Paulo são tradicionalmente católicas. Eu era um garoto pequeno de aproximadamente seis ou sete anos de idade, frequentava a missa com meus pais e sempre fui fascinado pela religião. Me fascinava ver os símbolos, os ícones, os códigos, os ritos, as celebrações, era algo que me trazia uma fascinação arrebatadora.

Quando eu ia à igreja com meus pais pouco prestava atenção nas coisas, pois sempre que eu via algo diferente, eu logo já queria saber o porquê, o que era, foi então que eles me encaminharam para fazer aula catequese. A minha professora de catequese ficava fascinada por ver o quanto eu gostava de fazer perguntas, e como eu criava conexões com as respostas que ela me dava com as coisas que eu já tinha informações, então eu vim a fazer primeira eucaristia na igreja católica.

Certo dia passaram algumas pessoas na porta de minha casa, eram religiosos testemunhas de Jeová, com a proposta de dar estudos bíblicos e discutir a religião, como eu achava isso fascinante eu aceitei a proposta. Os meus pais só observavam… risos… e eu fui. Cheguei a frequentar salão do reino. Um dia descobri um professor que era pastor adventista de sétimo dia e especialista em testemunha de Jeová e outras religiões cristãs, com isto fui estudar com ele, cheguei a participar da igreja adventista.

Minha formação mesmo foi cristã pela igreja Batista, sai de Cruzeiro com 19 anos de idade e fui fazer teologia num seminário batista em São José dos Campos, quando entrei com 21 anos. Estudei teologia por três anos, e no penúltimo semestre teológico me matriculei no curso de psicologia, sou psicólogo e teólogo de formação.

Trabalha ou chegou a trabalhar como psicólogo?

Pastor Cristiano Valério – Trabalho.

Qual o caminho que uma pessoa deve seguir para ministrar cultos e se tornar um pastor?

Pastor Cristiano Valério – Isso depende muito da denominação religiosa, no caso da ICM – Igrejas da Comunidade Metropolitana, ela tem uma estrutura muito diferente de Igreja. Geralmente Igreja, aí falando das igrejas evangélicas na América Latina, elas seguem uma lógica de mercado muito forte, pastor é uma profissão. Nas igrejas da comunidade Metropolitana o pastor é um servidor voluntário, ninguém é remunerado por nenhum cargo, por exercer nenhuma liderança dentro das Igrejas da Comunidade Metropolitana, isso já muda a coisa totalmente. Outra coisa é que a estrutura governamental é muito diferente, na ICM não existe um sistema piramidal de poder como existe nas Igrejas mais tradicionais.

Nós costumamos dizer que nós tentamos funcionar como círculos, o nome é Igreja da Comunidade porque é a comunidade que toma as decisões, é um sistema democrático. Numa comunidade local como, por exemplo, aqui na cidade de São Paulo, quando vamos nos reunir em assembleia eu que sou pastor da comunidade local, não tenho nem o voto de desempate, é a maioria simples que decide o que vai fazer ou como vai fazer a aprovação de algum relatório, orçamento de qualquer coisa, é tudo decidido pela comunidade, isso acontece nas outras esferas da ICM a nível nacional ou mundial.

 Como e quando despertou, surgiu a ideia de criar uma igreja Inclusiva?

Pastor Cristiano Valério – Na verdade eu não criei uma igreja inclusiva, eu ajudei a fundar um núcleo dessa comunidade aqui em São Paulo, a igreja inclusiva nasce no final da década de 60 em Los Angeles, nos Estados Unidos, junto com o movimento do direito civil da comunidade homossexual americana.

Naquele momento em que a comunidade homossexual está se imponderado, se tornando sujeito de sua própria vida, sua própria história e assumindo as rédeas políticas, inclusive lutando pelos seus direitos. Naquele período um pastor batista chamado Troy Perry, assume a sua homossexualidade, e ele assume lançando um livro chamado… O senhor é meu pastor, e ele sabe que eu sou gay.

Ele junto com alguns outros teólogos começam então a compartilhar textos, tratados teológicos a respeito da homossexualidade e da fé cristã, e naturalmente com isso ele então professor de teologia, foi expulso do colegiado Batista de Los Angeles.

Com a expulsão dele da igreja ele começa a receber pessoas na sala de sua casa que não eram acolhidas, não eram bem vindas às igrejas tradicionais daquele tempo, e quem eram as pessoas? Gays, lésbicas, travestis, transexuais, negros, mulheres no segundo casamento, mães solteiras, imigrantes sem documentos, ou seja, toda sorte de pessoas que não eram acolhidas pelas igrejas cristãs tradicionais daquele tempo, era muito bem vindas neste grupo. Era um grupo que vivia a margem da sociedade, a margem do direito, a margem do sistema religioso também, muitas vezes fora dos passos sagrados.

Ali nasce então em outubro de 1968 o que hoje nós conhecemos como Fraternidade Universal das Igrejas da Comunidade Metropolitana, que hoje esta presente em 53 países pelo mundo.

A quanto tempo ministra cultos evangélicos? 

Pastor Cristiano Valério – Na verdade há muito tempo porque antes de estar na IMC eu era Batista, eu sempre preguei desde bem jovem eu pregava.

Então além da Igreja Batista você chegou a frequentar outras igrejas evangélicas? 

Pastor Cristiano Valério – Cheguei a pregar em outras igrejas, não apenas na Igreja Batista, mas também na Adventista e também em outras comunidades quando eu era convidado. Isto aconteceu mais quando eu morava em São José dos Campos, pois eu era liderança de jovens, então era convidado pra encontros e retiros pra ministrar e fazer as pregações.

Na IMC de São Paulo eu estou desde a fundação que irá completar 10 anos apenas de presença. Quando eu conheci a ICM, não havia ainda nenhuma comunidade aqui no Brasil, isto tem 15 anos. Pesquisando na internet na época pelo Yahoo busca, não tínhamos ainda o Google… risos…  Na época do ICQ, fui fazer um trabalho da faculdade, descobri um encontro de negros e gays cristãos, e organizados por uma igreja.

Me perguntei… Como assim? Fui pesquisar melhor sobre isto.

Descobri que a Metropolitan Community Church, era uma igreja presente em todo os Estados Unidos, na Europa, Filipinas e em alguns poucos países da América Latina. Então comecei a me corresponder com pastor David e com sua esposa Linda, pastores metodistas aposentados que haviam se unido a ICM pra fazer missão na cidade do México. Correspondíamo-nos por carta e as vezes por e-mail, eles me enviavam material e aos poucos fui desenvolvendo uma relação afetiva com minha identidade. 

Porque até então, até o ICM eu sabotava minha existência, o pensamento que vinha a minha mente, é de que a homossexualidade era um pecado terrível, e quase sempre associado a tudo que não presta, era um kit de desgraça que a homossexualidade era só um item no meio de varias coisas.

A partir do conhecimento da ICM e ter comunhão com as pessoas, de conhecer as histórias, eu comecei a perceber que eu poderia perfeitamente ser homossexual e ser cristão, ter estes valores cristãos, cultiva-los e ser muito feliz sendo quem eu sou. Isto fez com que eu começasse a desenvolver uma relação afetiva com minha identidade, porque quando você por muitos anos ouve e se alimenta de pensamentos muitos descaridosos, violentos de si mesmo é muito natural que você não se goste, não tenha amor por si mesmo, e isto faz com que a pessoa sabote a sua própria existência.

Então acredita que só depois que você conheceu a ICM, percebeu que a igreja que frequentava não estava agregando valores e nem trazendo a palavra de Deus pra sua vida?

Pastor Cristiano Valério – Sim, na verdade eu acabei tendo a consciência de que, o que eu achava que era uma bênção, era uma maldição terrível, que estava destruindo minha vida e podia inclusive continuar neste processo de destruição. A medida em que eu fui me libertando e revendo aqueles paradigmas religiosos todos, eu comecei a me tornar uma pessoa mais livre, e hoje eu sou muito livre. Eu pude chegar num pastor presente da comunidade Batista, com muita tranquilidade e segurança e dizer a ele… Foi muito bom, foi um prazer, nem sempre foi… risos… Obrigado por este tempo, eu estou indo embora e muito feliz em dizer que esta caixinha não me cabe mais.

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Assim como você acredita que dentro destas igrejas mais tradicionais existam outros homossexuais?

Pastor Cristiano Valério – Sim existem muitos.

E se sentem acuados?

Pastor Cristiano Valério – Muitas vezes.

Na verdade, em parte é o sistema religioso, os paradigmas religiosos, que acabam oprimindo as pessoas, mas também as pessoas se permitem, elas são prisioneiras voluntárias deste sistema. Pensar fora da caixa dói, é difícil, o desafio é muito grande, é muito mais fácil se acomodar e fazer carinho no seu sofrimento e se resignar e dizer… Ah fazer o que? A vida é uma droga mesmo.

A vida é o que você construir, ela é sua você pode fazer dela uma bênção, uma coisa maravilhosa, criativa e livre, ou uma prisão desgraçada.

Tem um pensador que eu esqueci o nome (desculpe), que diz algo precioso… A felicidade existe sim, mas ela só esta onde você estiver!

Muitas vezes a gente tem a tendência de colocar a felicidade onde a gente não esta. Tem pessoas que pensam que se for hétero vou ser mais feliz, se eu for branco eu vou ser mais feliz, se eu for rico vou ser mais feliz. Você vai ser feliz quando entender que a felicidade esta onde você estiver.

Quando você teve a certeza sobre sua sexualidade, e como foram as experiências sexuais que você teve desde esta certeza?

Pastor Cristiano Valério – Eu passei por vários esquemas terapêuticos de reorientação da sexualidade. Participei de cultos, quando ouvia falar de terapeuta cristão que pretendia reorientar a sexualidade de um homossexual, eu ia atrás desta pessoa onde ela estivesse.

Participei de encontros de êxodo Internacional organizado pelo GA (Grupos de Amigos) do Rio de Janeiro, até onde eu sei não existe mais, e outros grupos terapêuticos evangélicos que tinham a proposta de reorientar a sexualidade do indivíduo. Numa dessas aventuras de busca por esta reorientação, eu conheci uma terapeuta cristã muito bonita que sugeriu pra mim, que eu deveria prestar mais atenção nela.

Nesta época eu tinha uma namorada, eu cheguei a relatar na terapia que eu sentia alguma coisa em nossos beijos, nossos amassos, então eu perguntei até que ponto eu deveria dar vazão a isto? Ela disse…na boa? Até onde você puder… (muitas gargalhadas rsrs)…

Ela deve ter raciocinado o seguinte… Sexo antes do casamento é pecado segundo os preceitos delas, mas no caso dele é melhor ele fazer… (mais gargalhadas rsrs), vai que resolve. Afinal o fim justifica os meios.

Então eu pensei… Eu acho que sou perfeitamente capaz de ter uma relação sexual satisfatória com uma mulher, e se eu tiver isto eu vou me curar. E eu consegui, tivemos uma relação sexual muito boa, muito satisfatória.

Lembro-me que eu fiquei 3 dias pensando que eu estava curado, eu sou heterossexual, não sou gay, me lembro de ter agradecido a Deus. Deus se fosse um velho iria me olhar com os óculos na ponta do nariz né (muitas gargalhadas rsrs).

Enfim não durou mais do que estes mesmos 3 dias pra eu perceber que a homossexualidade não era apenas a impossibilidade de ter uma relação sexual com alguém do sexo oposto. Na verdade era muito mais do que apenas isto, eu continuei me apaixonando por homens e gostando deles do mesmo jeito, apenas com a consciência de que eu sou capaz sim de ter uma relação satisfatória com qualquer pessoa.

Como jovem adolescente que eu era naquele tempo eu comecei a pensar da seguinte forma. A minha mão me satisfazia, e uma mulher é muito mais interessante que eu uma mão.

Faço uma expressão de quem discorda com o relato e novas gargalhadas tomam conta do ambiente rsrs…

Pastor Cristiano Valério – Mas eu não me apaixono apenas por uma mão.

E com homem quando foi sua primeira experiência?

Pastor Cristiano Valério – A minha primeira experiência de uma relação com homem foi com uma das pessoas que estava no encontro dos êxodos que eu participei, um grupo que pretende orientar a sexualidade das pessoas, ele estava dando testemunho de que fazia mais de 12 anos que ele estava livre da homossexualidade.

Ai eu pensei… meu… mais de 12 anos livre é muito tempo. E estes testemunhos geralmente super incrementados onde ele dizia, que mexia com drogas, com feitiçaria, com bebidas, que era homossexual, como se tudo isto tivesse alguma coisa a ver com sexualidade de uma pessoa. E eu prestando atenção no testemunho pensei comigo, se ele conseguiu eu precisava falar com ele pra saber qual é a receita, e eu fui falar com ele.

Ele me disse que com muita oração entre outras coisas eu conseguiria, mas era tudo muito vago. Eu falei, eu preciso conversar com você melhor sobre tudo isto. Este encontro do êxodos foi realizado no Rio de Janeiro próximo a Ilha do Governador, ele me disse que morava próximo e que eu poderia encontra-lo depois da cerimônia de encerramento do encontro para conversarmos melhor sobre tudo.

Foi com ele que aconteceu a minha primeira vez…rsrsrs…

Foi horrível, foi péssimo, porque ele iria me ensinar a deixar de ser homossexual e ele me ensinou exatamente o caminho inverso… (muitas gargalhadas rsrs).

Em certa medida isto me ajudou a entender o quanto isto é falso, quanto que a mentira e a religião tem uma relação muita intima, e as pessoas mentem muito, mentem com muita facilidade. E os testemunhos, a emoção é carregada com muita mentira, com muito exagero nas palavras, é muito vocativa, metafórica demais e muito regado de mentira.

O que você pensa sobre o Celibato praticado pelos padres da Igreja católica?

Pastor Cristiano Valério – Eu acho que as pessoas devem ter liberdade de fazer o que elas quiserem de suas vidas. Eu acredito que o dom mais sagrado que nós temos é liberdade, todos nós somos livres. Eu posso não concordar com algumas coisas, mas devo defender o direito que as pessoas têm que fazer o que elas quiserem de suas vidas, inclusive o de se expressar.

Eu só acredito que a sexualidade é parte fundamental daquilo que nós somos, então a sexualidade precisa ser trabalhada e vivida.  Se a pessoa vai viver desta forma negando o desejo tudo bem, mas que continue criticando, continue questionando, porque eu continuo questionando os meus posicionamentos até hoje eu não vou parar.

Eu não sou celibatário.

Eu tenho amigos que não são celibatários, não dão conta desta expectativa religiosa que esta sobre eles e acabam tendo que negar o tempo todo o desejo por conta dos dogmas da igreja.

E como você vê o conselho que algumas destas igrejas para que o homossexual seja celibatário para então poder “ser salvo”?

Pastor Cristiano Valério – Na verdade catecismo da Igreja Católica diz que o homossexual até pode ser aceito, desde que ele não pratique a homossexualidade. É o mesmo que você dizer, não tem problema que você seja um peixe desde que você não nade. Isso é desumano.

Agora é importante a gente entender a religião como qualquer outra coisa nesse mundo está uma constante mudança e evolução, embora a região mude em passos lentos e sem o mínimo de vontade, ela também muda um tempo vai acabar chegando em algum outro lugar.

Se a gente pensar que há pouco mais de 100 anos atrás as igrejas cristãs usavam a Bíblia pra provar “que os negros eram uma raça inferior” e a escravidão havia sido estabelecida por Deus.

Que inclusive não podiam casar com brancos.

Pastor Cristiano Valério – Sim exatamente.

Se a gente pensar que até pouco tempo atrás a maioria das igrejas, embora a Igreja católica ainda continue desse jeito, e insensíveis à mudança. As mulheres na igreja geralmente não tem direito de voz, elas são vista como um ser de segunda classe até hoje, e hoje em boa parte da igreja evangélicas você tem mulheres pastoras, bispas.

As mudanças acontecem infelizmente muito lentamente e a gente só consegue perceber isso com um pouco de revolta, por estas mudanças serem realmente muito lentas, mas elas acontecem. E estas mudanças elas acompanham as mudanças sociais, não é a igreja que muda a sociedade e sim a sociedade que muda a igreja. A voz da sociedade, a voz do povo se torna a voz de Deus na medida em que a igreja acaba reconhecendo o avanço social como algo canônico.

Chega uma hora que fica inviável manter certas posições.

Pastor Cristiano Valério – Exatamente. No Brasil, por exemplo, quando foi possível o divórcio por lei, os padres ficaram irados, achando que seria o fim da família brasileira, que a família não existiria mais. Cadê que acabou a família?

Agora eles já estão começando a pensar nos casais de segunda união, em algumas igrejas católicas inclusive já existem grupos de reunião com casais de segunda união, já batiza se filhos destes casais. As mudanças vão acontecendo lentamente, mas vão.

E agora casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, o mesmo discurso vai se repetindo. “Estão destruindo a família”, é um absurdo.

 Além de pastor você é homossexual, muitos pastores evangélicos repudiam e discriminam os homossexuais. Gostaria de saber se você já sofreu preconceito de outros pastores?

Pastor Cristiano Valério – Já sim. A gente recebe um volume significativo mensagens bem descaridosas, toda vez que tem uma matéria, um vídeo sobre a igreja nas redes sociais, os comentários são os mais absurdos possíveis. Então tem gente que profetiza um câncer que vai destruir a minha vida, dizem que Deus vai pesar a mão sobre mim, me questionam se eu não tenho medo da ira de Deus.

Eu não perco um minuto do meu tempo pra responder este tipo de mensagem. Agora quando as pessoas querem diálogo eu consigo um tempo de alguma forma e participo dos diálogos e debates. O diálogo pressupõe uma abertura das duas partes, eu estou sempre aberto ao diálogo.

Uma coisa legal da ICM, é que nós não temos dogmas imutáveis, nós não temos verdades absolutas, nós estamos no caminho de evolução. Eu tenho opiniões e pensamentos a compartilhar e contribuir, se você vem com verdades absolutas pra me trazer a gente não vai ter um diálogo nunca.

Até porque vem do histórico da igreja manter a verdade absoluta, sendo que historicamente isto não funciona assim.

Pastor Cristiano Valério – Não, e na verdade, estas ‘verdade imutáveis” já mudaram tanto.

Você já chegou a ser ameaçado de morte?

Pastor Cristiano Valério – Já.

Como foi isto?

Pastor Cristiano Valério – Através de mensagens por e-mail, por cartas, quando descobrem o numero do meu celular, e isso acontece com uma certa frequência. Pessoas que acabam hackeando o site da igreja, a gente já teve nosso site hackeado diversas vezes, inclusive com o nosso domínio sendo direcionado para outro site.

 Eles deixaram mensagem quando hackearam?

Pastor Cristiano Valério – Sim, às vezes eles deixam mensagens bem bonitas do tipo… A Ira de Deus vai cair sobre os sodomitas… Estas coisas bem religiosas e tão pouco cristãs (muitas gargalhadas).

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Qual é o publico que frequenta sua igreja Inclusiva? A maioria são LGBT’s? 

Pastor Cristiano Valério – Sim. A grande maioria são LGBT’s.

Porque um indivíduo branco hétero de uma condição econômica interessante pode ter muitas dificuldades onde dói as injustiças sociais. Um homem não sabe o que é ser uma mulher, estudar o mesmo, ter o mesmo cargo e não ganhar o mesmo salário. Só as mulheres sabem.

Um negro não sabe o que é ser um homossexual, porque o negro pode sofrer o racismo na escola quando criança e quando chegar em casa chorando vai receber um abraço do pai e da mãe. Já o homossexual não, ele não pode dizer pro pai e pra mãe. Isto é muito difícil e complicado.

A ICM é uma igreja radicalmente inclusiva e acolhe todas as pessoas, mas ela tem uma posição muito clara, uma teologia muito bem definida, e esta teologia é construída a partir das leituras da libertação, da teologia feminista, teologia negra. E estas teologias todas acabam dando um caráter muito mais de ativismo social do que de culto passivo pra comunidade, e isto acaba agregando valores a uma sociedade, então uma pessoa que esta confortavelmente adaptada a esta sociedade injusta, terá dificuldade de se deslocar pra um local deste.

Não que isto seja impossível, eu costumo dizer que eu não preciso ser negro pra lutar contra o racismo, não preciso ser homossexual para lutar contra a homofobia.

Então por conta disto a grande maioria dos membros que vem a ICM é gays, lésbicas, travestis e transexuais. Também recebemos crianças surdas, eventualmente casais heterossexuais e famílias heterossexuais.

2014-714762979-2014051608482.jpg_20140516O que o seu culto tem de diferente dos demais que ocorrem em outras igrejas evangélicas? 

Pastor Cristiano Valério– Eu penso que justamente o acolhimento.

A teologia da ICM acaba dando um tom e um clima todo diferente a celebração, nós não fazemos aquele movimento de nós, eles ou os outros. Não existe o de fora.

Uma teologia inclusiva é uma ideologia que se desdobra em mil para não deixar ninguém de fora, nós entendemos que está todo mundo dentro. Pra nós na teologia da ICM, Deus é chamado por diversos nomes, cultuado de diversas formas e nem por isso deixa de ser Deus.

E nesta visão todos e todas as pessoas, são filhos e filhas deste Deus. Numa teologia inclusiva eu não vejo o diferente como forma de ameaça, e sim como fator que enriquece a minha trajetória e todo o meu processo. A teologia inclusiva não é um respeito a diversidade sexual, e sim um respeito a toda a diversidade humana.

Se eu sou um cristão inclusivista, onde eu aceito gays, lésbicas, travestis e transexuais, mas eu continuo dizendo que a pessoa da outra religião vai pro inferno, que tipo de inclusão pobre e mesquinha que eu prego? Eu estaria operando na mesma chave dos demais, eu continuei sendo o mesmo imbecil e fundamentalista de sempre, eu só teria mudado o tipo ou a textura do veneno. Isto não vai construir nada, o cristianismo é o oposto disto, e isto acaba tendo um reflexo muito claro na celebração da ICM.

Na ICM existe a celebração da comunhão de todos os cultos, que é a Santa Ceia. Geralmente na igreja neste mundo os pastores ou o padre orientam que participem apenas as pessoas e membros batizados e iniciados naquela igreja, na ICM a mesa é aberta para todas as pessoas da comunidade.

A gente costuma mencionar que quando Jesus instituiu aquele momento da eucaristia, havia junto dele Judas que o havia traído por três moedas de prata, havia Pedro que iria nega ló ainda três vezes naquela madrugada dizendo não conhece lo, e mesmo assim Jesus não os colocou pra fora da ceia e compartilhou o cálice de vinho e o pão com todos eles.

Se o próprio cristo não excluiu ninguém, nem mesmo os traidores, quem sou eu pra fazer juízo sobre as pessoas. Então a mesa da comunhão na ICM é aberta a todos, isto é um reflexo da teologia da ICM.

O número de candidatos evangélicos nas ultimas eleições tiveram um numero recorde e por consequência o aumento da bancada evangélica no plenário também. Como você vê este aumento? Religião e política podem andar lado a lado ou acha que são assuntos que não deveriam se misturar? 

Pastor Cristiano Valério – O Brasil é um estado laico, porém infelizmente não é laico de fato. Então a gente vive entre o ideal e o real. Infelizmente a gente tem uma promiscuidade da religião que é a política o tempo todo.

O aumento de religiosos nas esferas de poder cresce e cresce também junto com isto os escândalos de corrupção e tantas outras coisas, muitas vezes com personagens desta bancada evangélica que não representam todos os evangélicos.

Eu me considero um evangélico no bom sentido da palavra, pois o evangélico pra mim é alguém que gosta de o tempo todo fazer referencias ao evangelho de Jesus que representa o amor de Deus para com as pessoas. E muitas vezes estes evangélicos estão praticando um desserviço muito grande pra sociedade brasileira. Muitos deles apresentando projetos pra combater alguns setores mais progressistas da nossa sociedade, que é o caso dos projetos que são claramente criados no intuito de tirar a dignidade da pessoa humana LGBT, projetos que visam tirar a possibilidade de discussão sobre diversidade sexual, identidade de gênero, ou pessoas estas que vivem numa condição de vulnerabilidade muito grande.

Por exemplo, o caso do projeto PLC122, sabemos o quanto os homossexuais, principalmente os travestis são assassinados no Brasil diariamente, e você vê cristãos lutando para que esta lei que criminaliza isto não seja aprovada. Eu não reconheço estes evangélicos de jeito nenhum.

O que pensa de pastores que utilizam seus cultos para pedir votos em ano eleitoral?

Pastor Cristiano Valério – As igrejas evangélicas no Brasil tem claramente uma visão de negócio, é puro poder por poder. São impérios com donos e herdeiros. 

Um empreendimento? 

Pastor Cristiano Valério – Sim um empreendimento. Não são poucas as vezes que a gente tem noticias, de que estas pessoas são capazes de tudo, exatamente tudo por dinheiro, até mesmo pedir cartão de crédito com senha no pubito da igreja. Vender milagres e se enriquecer a partir das desgraças, das doenças, das misérias das pessoas, e enriquecer com isto. Eu não consigo ver o evangelho nisto. São empresários da fé.

É desta forma que você vê os pastores Marcos Feliciano e Silas  Malafaia? 

Pastor Cristiano Valério – Humrum… Humrum…

São grandes empresários da fé. Existem varias denuncias nas redes sócias pra quem quiser pode pesquisar estes nomes. O Caio Fabio, que é um líder cristão não denominacional hoje em dia, tem vários vídeos dele na internet expondo as maracutaias, os escândalos envolvendo estes e outros personagens evangélicos que são riquíssimos as custas da desgraça e das fé das pessoas.

Recentemente os EUA aprovou a lei que permite o casamento gay em todos os estados de seu país. Como vê esta aprovação americana e a união estável em nosso país? 

Pastor Cristiano Valério – Eu achei muito bacana. Aqui no Brasil nós não temos uma união estável, antes dos EUA nós conseguimos não pelo legislativo e sim pelo judiciário a possibilidade do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. E é um avanço muito importante, emblemático e significativo os EUA conseguir isto que nós sempre lutamos por tanto tempo.

Eu não tenho um discurso de que as pessoas devam se casar, não sou moralista a ponto de dizer que todo mundo deve encontrar o seu parceiro, sua outra metade, não gosto deste tipo de discurso, mas eu acho fundamental a luta pelo direito civil da comunidade homossexual e de forma especial o casamento. É um direito, que é negado as pessoas, mesmo aqueles que não querem se casar devem ter o direito de não se casar por sua escolha e não porque este direito lhe é negado.

A IMC de São Paulo celebra casamentos gays. No mundo desde 1968 nós celebramos casamentos gays, na internet tem as fotos dos primeiros casamentos gays em preto e branco em nossa catedral de Los Angeles.

Já chegou a ministrar algum casamento homoafetivo? Como foi esta experiência pra você? 

Pastor Cristiano Valério – Sim quase que semanalmente. É muito legal, muito interessante, muito gostoso isto tudo.

É um momento em que você torna celebre algo que é caro demais pras pessoas, é um investimento de vida, de sonhos, de planos, foram muitas lágrimas nesta construção toda, alegrias, coisas maravilhosas que aconteceram e que agora este casal decide celebrar esta união. Eu gosto de celebrar casamentos e faço isto com muita alegria.

Antes da lei, antes de ser possível o casamento civil, as pessoas me questionavam o porquê de eu celebrar um casamento gay, diziam que não era possível ter um casamento gay, pois não havia lei pra isto.

Eu dizia… Calma, espera ai. O casamento é quando duas pessoas decidem dividir a vida, os sonhos, os planos, as responsabilidades, e isto independe de reconhecimento legal. Quando este direito for reconhecido, a justiça não vai fazer o casamento gay, ele sempre existiu, a justiça só reconheceu uma instituição que já andava a muitos anos e teve muitas evoluções.

Semana Santa
Semana Santa

Como vê a adoção de crianças por casais homossexuais? 

Pastor Cristiano Valério – Eu vejo da mesma forma que eu vejo a adoção por casais heterossexuais, como uma coisa linda. Agora no caso de casais homossexuais têm uma coisa interessante, são casais que muitas vezes vão adotar os filhos de casais heterossexuais que de alguma forma não puderam cuidar destas crianças e os abandonaram.  Agora estas crianças são acolhidas por um casal gay, que ira ama-los, educa-lo, e forma-los cidadãos. 

Você tem ou pretende ter filhos? 

Pastor Cristiano Valério – Não tenho filhos, a minha vida é muito agitada. Eu tenho na verdade um labrador em casa que eu o amo muito e é quase um filho também.  Eu não tenho filhos e não é uma coisa que penso pros próximos 2 anos.

Como sua igreja se mantém financeiramente e de que forma é administrado isto? Existe remuneração para os colaboradores da igreja? 

Pastor Cristiano Valério – Não existe nenhuma remuneração para nenhum colaborador da igreja. Este espaço onde vocês estão é a sede da ICM de São Paulo é um espaço alugado, e ele se mantém com contribuições voluntárias.

A diferença é que a forma como é gerido este recurso é decidido pela própria comunidade, que elege um conselho fiscal e uma tesouraria que é formada por pelo menos seis membros, esses membros cuidam de todo o financeiro da comunidade. As lideranças pastorais nunca participam disto.

É feito um trabalho para manter a mais absoluta transparência na gestão destes recursos. No fundo do salão tem um quadro onde consta todas as entradas e despesas, sendo que na lista de despesas não existe nenhum tipo de despesas com o pessoal. Desde a limpeza, a organização, até o serviço pastoral do local é exercido voluntariamente.

Como você interpreta os textos bíblicos que acusam a homossexualidade de ser um ato abominável? 

Pastor Cristiano Valério – Da mesma forma como eu interpreto o restante dos outros textos. O que acontece é que na teologia da ICM a gente não seleciona textos bíblicos para ser estudado ou pra gente ler.

A gente encara a bíblia como ele é na sua materialidade, nós não temos um pensamento ingênuo religioso de que a bíblia é um livro que caiu do céu, e alguém foi La pra ver o que estava escrito. Na sua materialidade a bíblia é um conjunto de livros escrito por diversos autores, muitos destes autores desconhecidos, que foram reunidos depois pela igreja num Canon e dado o nome de bíblia.

A bíblia é uma produção humana de inspiração divina, pois estes autores eram religiosos e tinham como fonte de inspiração Deus, e estes homens e mulheres de Deus escreveram dentro de suas limitações no seu contexto social e cultural o que eles percebiam, o que sentiam sobre Deus. Ai você tem muitas coisas a respeito no relato destas pessoas.

Nestes relatos tem poemas, musicas, e outras varias coisas interessantes e a gente vê a bíblia desta forma.

No caso dos textos bíblicos que são usados e que foram apropriados pelos religiosos fundamentalistas como armas contra a comunidade homossexual, a gente faz a mesma leitura que fazemos do restante do texto, uma leitura histórico crítica do texto.

Por exemplo:  Levítico 18:22 que diz, “não se deite com um homem como quem se deita com uma mulher, é repugnante”, ou seja seria uma abominação. No mesmo capitulo 18 do livro de Levítico vai dar entender que este contexto, esta falando a respeito da adoração aos deuses da fertilidade que era muito comum os vizinhos de Israel, um Deus chamado Moleque, e este Deus exigia sacrifício das crianças, ou seja, o sacrifício humano.

Somente neste contexto existe este trecho isolado e são usados como armas contra os homossexuais. A bíblia não fala de homossexualidade como nós a conhecemos, toda vez que vai falar a respeito de uma relação entre pessoas do mesmo sexo, o contexto esta no contexto de violência, de estupro, de varias violações e tantas coisas terríveis que qualquer relação independente de ser uma relação homossexual pode ser abominável.  Até mesmo uma amizade dentro destes conceitos é abominável.

O próprio cristo silencia a respeito da homossexualidade, ele não vai falar sobre a homossexualidade, pois isto não é uma questão a ser discutida. Agora ele fala sim sobre varias coisas que eram importantes como a hipocrisia religiosa, o fundamentalismo religioso, o machismo. O tempo todo Jesus foi muito incisivo contra todas estas coisas, mas sobre a homossexualidade não.

A bíblia não condena os homossexuais de forma alguma, quem condena são estes religiosos fundamentalistas. Outros versos neste mesmo livro de Levítico vai dizer que comer camarão é uma abominação, meu marido faz uma abominação na moranga que é uma delicia.

Gargalhadas tomam conta do recinto novamente, rsrs… Não existe um interesse de levar esta questão histórica porque só existe o interesse de condenar e dar uma ênfase muito grande a isto e as outras partes simplesmente se faz vista grossa. Como usar roupa de dois tecidos. 

Pastor Cristiano Valério – Sim usar uma camisa de algodão e poliéster, plantar no mesmo canteiro abobrinha e cebolinha, tudo isto é uma abominação. Então quando alguém vem com esta conversa comigo eu já pergunto, você já leu o texto? Já falo é tão abominável quanto comer camarão (novas risadas rsrs).

O argumento fundamentalista é muito frágil, porém como ele é repetido a exaustão as pessoas interiorizam isto e acaba se tornando uma verdade absoluta.

Então você vê a bíblia como um livro que fica a interpretação de quem esta lendo, e não necessariamente fiel à mensagem da forma que foi escrita.

Pastor Cristiano Valério – O próprio cristo no evangelho vai interpelar as pessoas dizendo o seguinte, quando alguém trás uma questão religiosa…  Como esta escrita nas escrituras? É da forma como você lê.

É fundamental saber como você. As pessoas não veem as coias como elas realmente são, elas veem as coisas como elas se sentem. Então quando alguém di que Deus pesa a mão, que ele se ira, que perde o equilíbrio emocional, que Deus é raivoso, que julga, que condena é porque eu estou sabendo mais sobre a pessoa do que Deus.

Freud mesmo dizia isto… Quando Pedro me diz de Paulo, eu sei mais de Pedro do que de Paulo.

As igrejas mais convencionais pregam pela não pratica de sexo e nem masturbação antes do casamento, como você esta posição destas igrejas? 

Pastor Cristiano Valério – Eu penso que se não atrasar a celebração do casamento, não vejo problema algum no sexo antes do casamento. O atraso é um pecado grande com as pessoas, uma falta de respeito com quem esta esperando a celebração acontecer.

Na verdade eu acho fundamental que as pessoas se conheçam, e a masturbação tem um papel importante na descoberta e no alto conhecimento. As pessoas tem que entender que é natural, que é importante se falar abertamente a respeito disto sem demonizar, sem criar um estigma nos jovens por conta de algo tão natural.

O sexo antes do casamento é importante e fundamental para que se conheça o parceiro. Não é só saber se o seu parceiro gosta de chuchu como você gosta de chuchu, é saber onde tocam os sinos da alma do outro.

Recentemente entrevistamos um Frei da igreja católica onde perguntamos se existia assédio por parte dos paroquianos. Gostaria de saber se existe este mesmo assédio por parte dos fiéis que frequentam seu culto e como lida com este assédio? 

Pastor Cristiano Valério – Eu não noto isto com tanta frequência, mas é claro que acontece. Eu lido com isto de uma forma muito tranquila.

Geralmente quando isto acontece, é com alguém que não me conhece, que não conhece a minha família. Logo eu chego converso, explico que eu sou casado.

10173820_10204089372657011_4714626575308736358_nMuitas pessoas vivem em conflito com sua sexualidade, algumas até tentam o suicídio por não conseguirem suportar o conflito da sua cabeça em aceitar sua sexualidade. Você já pensou em suicídio? 

Pastor Cristiano Valério – Infelizmente isto é muito comum e muito frequente. Eu já pensei nisto algumas vezes na minha adolescência e já acompanhei muitas pessoas com pensamentos suicidas.

Na verdade a religião, principalmente a igreja cristão ela acaba por não dar nenhuma opção de vida, de existência pros homossexuais. Muitas vezes as pessoas acabam chegando a conclusão que não dá pra coexistir com religiosos cristãos e acabam tendo meio religioso e familiar como seu mundo. Ali ela tem todos os seus amigos, toda a sua família, as pessoas que ela admira e ama, e estas pessoas vão o tempo todo comunicar consciente ou inconscientemente de que você não é bem vindo, de que ali não é seu lugar, que você é uma abominação, que você não é de Deus. Que nem Deus gosta de você.

É muito fácil uma pessoa que é alimentada por este tipo de sentimento o todo ter este tipo de pensamentos suicidas. Alguns chegam mesmo a se suicidar infelizmente.

Qual seu conselho as pessoas que pensam no suicídio como forma de fugir deste conflito com a sexualidade? E que vão ler esta matéria. 

Pastor Cristiano Valério – De que é perfeitamente possível ser homossexual e cristão, ou ser qualquer coisa que você quiser e ser homossexual. Existem gays nas mais diversas tradições religiosas do mundo, nas mais diversas profissões do mundo. Os gays de certa forma são minorias, mas eles estão em todos os lugares.

A gente só consegue ser feliz quando a gente se conhece, quando a gente se descobre, e quando a gente começa a partir desta descoberta desenvolver uma relação afetiva com a nossa própria identidade. É possível se gostar, todos somos seres únicos e especiais, não existe ninguém igual neste planeta. Por mais que a gente possa se agrupar em grupos e subgrupos, cada ser humano é um ser único e especial. A gente precisa se descobrir desta forma, se conhecer e se valorizar.

Existe um caminho pra isto. Eu como cristão acredito que através de Jesus e do amor de Deus pode se curar este desamor por nós mesmos e abrir um mundo de infinitas possibilidades.

Gostaria de saber se caso nossos leitores tenham alguma pergunta a ser feita diretamente a você, se pode ser feita através de nossa equipe ou procura ló diretamente em sua igreja? 

Pastor Cristiano Valério – Quero que todos fiquem muito a vontade para nos procurar. Eu estou aqui na ICM de São Paulo toda quinta feira das 14:00 as 21:00 horas. Temos um plantão de atendimento pastoral, onde recebemos as pessoas para tirar duvida a respeito da comunidade, tirar duvida, ouvi las. 

São 14 igrejas da ICM, em outras capitais pelo Brasil. Estas pessoas podem fazer contatos com as lideranças pastorais destas cidades. 

Temos o site da ICM do Brasil: www.icmbrasil.com

Temos o site da ICM de São Paulo: www.icmsp.org

Estes sites vocês encontram varias informações interessantes, com vídeos, filmes e bastante conteúdo pra todos vocês.

Gostaria de fazer algum comentário final? 

Pastor Cristiano Valério – Gostaria de dizer que quando a gente pensa em Deus, quando a gente fala a palavra Deus poucas pessoas sabem do que estão falando ou tem a ideia clara do que é Deus.

É tão transcendente, tão longe da gente. Mas é interessante porque a tradição cristã vai dizer que Deus nos fez a sua imagem e semelhança. Agora se cada ser humano é único e especial como é que nós somos a imagem de Deus? É ai que algumas pessoas religiosas acabam dizendo que Deus é um velho branco, de olho azul, que Deus é homem.

Eu costumo pensar que Deus é grande mosaico formado por toda a diversidade humana, por todas as cores, por todos os brilhos, por todos os olhares do mundo, e nós formamos este rosto amoroso de Deus.

Esta é uma imagem de Deus mais próxima do evangelho. Nós somos cada um de nós independente de nossas individualidades, das nossas características únicas e especiais, da nossa orientação sexual, da nossa cor, todos nós somos filhos e filhas de Deus.

Obrigado pelas palavras e pela entrevista Cristiano.

7 COMENTÁRIOS

  1. Adorei a matéria,e as explicações do reverendo foram satisfatórias.
    Sou cristão homossexual e sei o quanto é difícil servir a cristo com tantos preconceituosos de plantão.
    MAS COM CRISTO,NÃO TEM DIFICULDADES!

  2. Queria muito de a igreja assim, onde as pessoas possam ser elas mesmas, freqüento uma Igreja Presbiteriana ,amo muito ir lá e louvar e agradecer a Deus e receber a palavra, porém não quero ser membro devido a igreja acreditar que nós homossexuais somos um plano de Deus que deu errado ! Matéria reconfortante principalmente qdo comentou sobre as passagens bíblicas que sempre são usadas para nós colocarem no fogo do inferno ! Seus está em todos e em tudo que nesse mundo existe ! Deus abençoe a vida de todos nos!

    • Junior obrigado pelo comentário.

      Tenho certeza que o Cristiano ficaria muito feliz em recebe lo em sua igreja. Voc~e não necessariamente deveria deixar de frequentar sua igreja, mas achi que uma visita a ICM é super válida.

  3. Parabéns pela entrevista! Parabéns ao Pastor Cristiano, gostaria muito de conhecer os textos mencionados nesse trecho: “…Ele junto com alguns outros teólogos começam então a compartilhar textos, tratados teológicos a respeito da homossexualidade e da fé cristã,…”

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