Diálogo e debate – Artes Quase Esquecidas

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Há umas duas semanas atrás a ex-candidata a presidente Luciana Genro afirmou que iria procurar o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para buscar apoio para barrar o andamento de um projeto de lei que dificultaria o acesso de partidos pequenos aos recursos do fundo partidário e ao tempo de rádio e televisão.

Imediatamente uma tempestade de opiniões se formou, condenando a prática, dizendo que Luciana estava cedendo à maracutaia, que ela não poderia negociar com o PSDB, um dos seus maiores rivais, e que ela estava se vendendo aos Tucanos.

Porém, em tempos de crise política e econômica temos que tomar muito cuidado em condenar todo e qualquer diálogo entre partidos com visões e posicionamentos ideológicos opostos, sob pena de criarmos uma ditadura branca onde quem tem maioria impõe sua visão de mundo aos outros.

Isso porque, dialogar e construir consensos está no DNA da democracia. O debate de ideias, o ato de ouvir os argumentos do outro lado e ter a empatia de se colocar no lugar do outro são o combustível de um sistema democrático saudável, pois garante uma ampla participação das correntes de pensamento e dos direitos de toda a população levando à construção de um consenso que pode ser bom para toda a sociedade.

Assim, dialogar, expor ideias, mostrar fatos, dados e conclusões diferentes leva ao aprimoramento de conceitos e institutos, fazendo evoluir a sociedade como um todo, pois expõe essas ideias ao aprimoramento antes de serem colocadas em prática.

Mas para isso temos que estar abertos ao diálogo, despidos de orgulho e preconceitos, dispostos a ouvir o outro lado, respeitar sua posição e de fato levar em consideração o que o outro tem a dizer, e é aí que mora o perigo.

De um tempo para cá nossa sociedade passou a dialogar cada vez menos, acirrar cada vez mais as próprias visões e posicionamentos e achar que o outro lado não tem nada de bom a contribuir. Tudo o que se dizia diferente do Governo era tido como palavras da oposição golpista e elitista, que queria seus privilégios de volta, sem valor nenhum. E tal prática perdurou por mais de uma década, até que as pessoas começaram a se calar, se irritar e reagir de forma cada vez mais violenta e sem limites.

E não é só no debate das ideias da gestão a e administração públicas que houve essa falta de diálogo, as pessoas em suas vidas passaram a ser as donas da verdade, expuseram com força seus pensamentos e quando eram questionadas por pensamentos diferentes, elas nem sequer param para ouvir ou raciocinar sobre o outro ponto de vista, rejeitam de imediato qualquer argumento, por mais sólido que seja, simplesmente por ser contrário ao que se pensa.

Assim, vamos nos cristalizando em nossas posições, não evoluímos e perdemos oportunidades preciosas que poderiam transformar nossas vidas.

E especialmente na política, dividir a sociedade entre nós e eles, prejulgando como ruim tudo o que vem do outro lado é um método de manipulação maniqueísta, utilizado apenas para afastar o outro lado e negar suas razões. Se não era correto quando um grupo no poder fazia, tampouco é correto agora quando se alternam as posições, sob pena de transformarmos o oprimido em opressor.

Evidentemente que quando eu me refiro ao diálogo, falo sobre o debate de ideias, posições, pensamentos e construção de consensos necessários à evolução e melhoria do País, e não me refiro à negociata barata que se instalou no Poder Legislativo e Executivo. Hoje em dia infelizmente a negociata barata focada em benefícios, privilégios ou interesses se aproveita da falta de diálogo maduro e nos impõe diariamente problemas cujos efeitos nefastos serão sentidos por anos a fio.

Porém, o desvirtuamento de um instituto não pode servir para acabar com o diálogo. Muito pelo contrário, temos que discutir, dialogar, debater as ideias cada vez mais, temos que chegar a consensos com base em valores, princípios e soluções e não com base no “toma-lá-dá-cá”. Assim, a atitude de Luciana Genro deveria ser louvada e repetida por todos os líderes partidários, que deveriam buscar o diálogo franco, o debate sadio e o convencimento e não a venda de decisões. Que tal usarmos isso no nosso dia-a-dia também?

1 COMENTÁRIO

  1. Querido Guilherme,

    Você está corretíssimo na defesa do diálogo.
    Temos que parar de brincar de cabo de guerra porque isso não nos levará a lugar nenhum.
    A partir do momento que cada um parar para ouvir o outro, verá que por mais que uma ideia seja boa, ela pode ser melhorada com a ideia do outro.

    Abraços,

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