Entrevista com Tales Gubes, criador do Ninho de Escritores

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Tales Gubes

Tales Gubes, do Ninho de Escritores, participa da Semana do Escritor e fala sobre seu trabalho como escritor, suas ideias e seus projetos.

Perfil – Tales Gubes

Tales GubesNome: Tales Gubes.
Se formou em: Jornalismo.
É conhecido por ser: o criador do Ninho de Escritores.
Odeia demais: Violência.
Ama muito: Viver experiências divertidas de conexão.
Fica feliz quando: Alguém responde a um texto que escrevi.
Tem medo de: Passar vergonha e não conseguir lidar com isso.
Não tem medo de: Mudar de cidade e carreira a cada punhado de anos.

Entrevista

Quando você decidiu ou percebeu que queria ser escritor?

Tales Gubes – Eu sempre tive clareza de que queria ser escritor, desde criança. Ou, pelo menos, trabalhar com a criação de histórias.

Algumas vezes isso esteve vinculado a desenhar e até a fazer jogos, mas o que acabou persistindo na vida – talvez por haver encontrado mais estímulo e portanto me dedicado mais – foi a escrita.

Livros sempre me atraíram, então desde pequenino eu sabia que queria estar envolvido com a criação deles.

Atualmente você trabalha com outras atividades além de escritor? 

Tales Gubes – Sem dúvida!

Eu tenho uma escola para escritores (o que envolve muito mais do que escrever: eu educo, apoio, comunico, divulgo, organizo eventos, facilito encontros, ouço, cuido e mais um monte de coisas legais e um tanto de outras bem chatas e burocráticas).

Trabalho em um jogo para mobilização social de juventudes, faço revisão, tradução, registro narrativo de experiências (se bem que esse pode ser considerado dentro de “escritor”), facilitação de grupos e experiências, design de ambientes e experiências de aprendizagem.

E certamente devo ter esquecido alguma coisa!

Quando você começou a se considerar oficialmente escritor?

Tales Gubes – Eu parei de me considerar escritor no início da faculdade, quando descobri que muita gente escrevia melhor que eu.

Eu voltei a me considerar escritor uns sete ou oito anos depois, quando vi que muitos livros são publicados com qualidade inferior ao que eu acreditava ser capaz de produzir.

Mas de verdade, de verdade, faz uns dois anos que me chamo de escritor sem receio nenhum de que alguém consiga “provar” que eu não o sou.

Qual é a parte mais difícil ou desafiadora de ser escritor na sua opinião?

Tales Gubes – A parte mais difícil de ser escritor é entender que a escrita, como qualquer arte, é trabalho. É linda, é mágica, move montanhas, mas é trabalho.

Tem que acordar mais cedo, tem que chorar na frente da página em branco, tem que repensar uma palavra por horas, tem que um monte de coisas que a fantasia do escritor genial nunca considera.

Tem muitos prazeres e eu sigo fazendo porque é um tesão incrível, mas é trabalho e trabalho às vezes cansa.

O que mais gosta no ato de escrever ou de ser escritor?

Tales Gubes – Todos os meus textos são convites à conversa com quem me lê.

O que mais quero é que o texto seja uma ponte, porque é a forma como melhor consigo expressar o que se passa no meu universo particular.

Quando escrevo, esse universo passa a ser compartilhado e isso é maravilhoso.

O que eu mais gosto no ato de escrever é a conexão durante e depois da leitura.

Qual foi o projeto/livro mais interessante no qual você trabalhou até hoje? Como foi?

Tales Gubes – Eu tenho cada vez menos me interessado no trabalho individual/autoral e cada vez mais na construção colaborativa de histórias – de ficção e de vida.

Dentro do Ninho de Escritores, eu me junto às pessoas para ajudá-las a criarem suas histórias. De alguma maneira, elas ficam também um pouquinho minhas.

Em vez de falar no que eu já trabalhei, vou comentar de algo que estou começando a trabalhar junto com três outros escritores: nós vamos escrever histórias juntos, como grupo.

Tales Gubes - Ninho de Escritores
Tales Gubes – Ninho de Escritores

É um exercício, mas também é uma possibilidade de cocriação absolutamente incrível porque vou poder partilhar o que amo fazer com pessoas que amo estar junto e que também amam as mesmas coisas que eu – tudo isso para produzir histórias que se conectarão com outras pessoas.

Tenho usado a metáfora da “banda” para explicar esse projeto e posso dizer sem medo que tem coisa boa vindo por aí 🙂

Que conselho daria para quem está começando uma carreira profissional agora nessa área?

Tales Gubes – Vou escapar um pouco do “comece logo”, “escreva bastante”, “leia muito”, porque são todos bons conselhos e muito necessários, mas também super comuns de achar por aí.

Meu conselho talvez soe esquisito, mas se funciona para músicos, dançarinos e pintores, por que não para escritores?

Copie um livro que você gosta palavra por palavra. Isso mesmo, mas não é qualquer livro e não é qualquer cópia. Tem que ser um livro que você gostaria de ter escrito, aquele livro que te estimula a escrever melhor. E a cópia tem que ser consciente.

Copia uma frase, pensa sobre ela, sobre como ela foi escrita, por que ela está desse jeito e não de outro. Brinque com a frase, reescreve, tenta montá-la de outros jeitos, experimente qual soa melhor.

Troque uma palavra e veja o que acontece. Troque um verbo e veja o que acontece.

Reescreva a mesma frase vinte vezes. Depois vai para a próxima e repita o processo.

Disseque o texto. Entenda o texto.

Que escritor ou escritores você admira? Por quê?

Tales Gubes – Eu sou apaixonado pelo Neil Gaiman por causa de Sandman. Também li os contos e romances dele, mas foram os quadrinhos que me pegaram.

O que te inspira a criar seus trabalhos? De onde você tira a energia e inspiração para conceber novos projetos?

Tales Gubes – Tem muita coisa que precisa ser consertada no mundo para que todas as pessoas tenham oportunidades semelhantes de serem felizes.

É da frustração desses consertos ainda não serem lugar comum que eu encontro inspiração e energia para continuar criando, escrevendo e publicando.

Eu escrevo para mudar o mundo, um leitor e uma conversa por vez.

Como é seu processo de criação?

Tales Gubes – Para mim, qualquer processo que exija mais do que duas ou três horas numa sentada só precisa ser planejado.

Se vou escrever uma história, faço um mapa da narrativa, avalio as relações entre os personagens, descubro o que quero dizer com meu texto.

Minha arte não é sobre expressão e sim sobre comunicação, então eu preciso, antes de qualquer coisa, saber o que quero dizer com ela.

Se não sei, o texto sai ruim. Acredito que ideia sem propósito pode até ser bonitinha e entreter, mas não é a serviço disso que eu estou.

Depois que tenho o mapa da narrativa pronto, aí é sentar e produzir. Como às vezes tenho dificuldade de fazer isso por conta própria (preguiça, indisciplina etc.), eu marco mini retiros urbanos de escrita com amigos ou desconhecidos, vou para uma biblioteca pública e me comprometo a não fazer nada além de escrever durante algumas horas.

Realmente funciona 🙂

Você consegue eleger seus trabalhos favoritos, ou alguns deles para falar? Quais são eles e como foi criá-los?

Tales Gubes – Atualmente, meu favoritismo está para a escrita diária que faço no Medium.

São textos relativamente curtos, entre 750 e 1500 palavras, nos quais escrevo e dialogo sobre temas que me importam.

Escrevê-los e publicá-los todos os dias tem sido uma experiência riquíssima porque percebo as muitas armadilhas que surgem quando queremos manter o hábito de produção criativa.

Tem dias que não dá vontade, tem dias que não dá tempo (e aí tenho que arranjar tempo), tem dias em que eu quero rolar na cama e dizer que só hoje não (e depois rolo de volta e escrevo).

Escrever diariamente textos que sejam relevantes para outras pessoas é uma segunda camada desse meu desafio pessoal.

Eu poderia ser verborrágico, mas se minha intenção é a conversa, eu estaria errando feio, então escrever todos os dias sobre assuntos diversos me obriga a exercer um olhar de abundância para o mundo.

Alguém virou pra mim e exclamou “nossa, não sei se eu teria tanto assunto”, mas a real é que o mundo é complexo o suficiente para termos assuntos para jamais pararmos de escrever.

Eu sei que essa pergunta esperava uma obra ou outra. Respondê-la me ajudou a perceber que o que me interessa no meu trabalho é o processo, depois que vira obra realizada, meio que perde a graça.

Eu amo todos os livros que produzi até hoje, os coletivos e os individuais, mas eu amo mais ainda estar escrevendo hoje, porque já não sou mais a mesma pessoa.

Que louco, né?

Tales Gubes - Contos
Tales Gubes – Contos

Onde você busca informações para aprender mais ou se manter atualizado sobre essa atividade profissional?

Tales Gubes – Eu leio muito outras pessoas que, como eu, também treinam escritores.

Aprendo muito sobre a escrita lendo a respeito de comportamento humano, também.

Depois que a gente entende o básico sobre a estrutura das narrativas, o resto vai sendo encaixado. Como acredito que absolutamente tudo pode ser transferido de uma área para outra, com frequência faço analogias ou tento estabelecer conexões entre atividades diferentes.

Fiz aula de desenho? Penso como posso usar isso na escrita. Assisti a um espetáculo de dança? Qual é a relação disso com escrita? Lancei uma empresa? Organizei um evento? Conversei com uma amiga? A vida oferece referências o tempo inteiro 🙂

Que lugares LGBT você gosta de frenquentar ou indica para os leitores?

Tales Gubes – Eu não tenho frequentado lugares LGBT ultimamente.

E para fechar, por onde podemos seguir você?

Tales Gubes – Meu site pessoal tem link para os livros que escrevi. A página do Ninho de Escritores explica o projeto e como participar gratuitamente da comunidade online.

No Facebook é por onde eu mantenho a maior parte das minhas conversas e sou super aberto a conhecer novas pessoas, desde que me mandem mensagens antes.

No Medium, é onde ando escrevendo com mais frequência.

As três dicas de Tales Gubes

Veja as indicações que Tales compartilhou para rechear nossa biblioteca de livros, de música e de filmes.

Uma música ou uma playlist:

Tales Gubes – Eu gosto muito de Sigur Ròs, uma banda islandesa que mexe forte com meus sentimentos.

Não consigo ouvir qualquer que seja a música deles sem ficar sintonizado com uma certa melancolia – e uso isso direto para escrever, dependendo do meu objetivo.

Um livro ou um escritor:

Tales Gubes – O livro Wired for Story, da Lisa Cron, me ensinou como usar os aprendizados da neurociência para analisar e criar boas histórias. Na linha da não-ficção, é quem eu recomendo sem nem pensar duas vezes.

De ficção, meu autor favorito é o Ian McEwan, ao qual retorno de tempos em tempos. As minhocas que passam dentro da cabeça dos personagens dele também passam na minha, daí rola um bom reconhecimento.

Um filme ou uma série:

Tales Gubes – Tem um filme fabuloso chamado “Dans la maison”, sobre um professor de literatura que ajuda um garoto a escrever uma história e o que o garoto escreve se confunde com a realidade mostrada no filme.

Contudo, a minha série favorita de toda a vida é Being Erica, sobre uma mulher que viaja no tempo para reviver e aprender com seus arrependimentos.

E meu muito obrigado ao Tales por esse papo incrível, recheado de aprendizados!

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